De onde vem a esperança? Vem debaixo do barro do chão.

 (foto: Dimitre Lee)

 

          Dentre as características da pós-modernidade literária no que concerne à criação artística, Proença Filho elenca: uma dimensão experimentalista, a utilização de intertextualidade, o esgarçar das fronteiras entre a arte erudita e a popular e um ecletismo estilístico que mistura várias tendências e estilos sob o mesmo nome. É aberto, plural, e muda de aspecto se passarmos da tecnociência para as artes plásticas, da realidade palpável à filosofia, da história para o hodierno.

 

            “Outras Paragens”, romance histórico-poético de Filipe Moreau (Editora Sempiterno, Jaboticabal-SP, 2016, 512p.) se filia a esta classificação. Amparado em pesquisa de Maria Laura da Silva Telles que se intitula: “Ser tão antigo: fragmentos de uma história de família”, e em farta bibliografia, Moreau segue as pegadas do italiano Antônio Tomei Mariani (1734-1817) que em 1760, aos 26 anos portanto, chega às paragens do imenso sertão da Bahia (boa parte do qual pertencente ao clã dos Garcia D´Ávila). Tomei viaja pelos sertões, se ambienta, estuda a natureza selvagem da região, compra fazendas, cria gado, se estabelece como um dos primeiros moradores da Vila da Barra do Rio Grande (um dos inúmeros povoados ribeirinhos criados ao longo do rio São Francisco), e, naturalmente, casa-se e gera sua prole. Esta a espinha dorsal do alentado romance que investiga desde meados do século XVIII a vida e sobretudo a descendência do genovês. Paralelamente aos acontecimentos históricos de nossa jovem nação vemos a trajetória e atuação dos Tomei Mariani. Mas não é só. Há mais.

 

 (O escritor Filipe Moreau)

 

            Filipe Moreau tem uma particularidade que muito interessa à estética pós-moderna: sua relação com a música. A narrativa bebe na fonte de letras de músicas revelando a ocorrência de multiplicidade de discursos e estimulando a literatura a entrar em contato com outros sistemas semióticos, aumentando o grau de hibridismo da narrativa ficcional. Essa estrutura híbrida  –  mescla de gêneros pouco comuns em um romance tradicional, a forma fragmentada da composição, a alternância de narradores, a inclusão de ilustrações e fotografias como elementos sugestivos fazem de “Outras paragens” um típico exemplar da literatura pós-moderna brasileira. E o autor joga com todos esses elementos de forma a revelar uma multiplicidade de perspectivas e possibilidades críticas.

 

            Havemos de salientar ainda, que a maneira como o romance foi concebido revela certa disposição de pensamento que suplanta a clássica concepção de História  (mestra da vida com seu repertório de exemplos), e passa a acreditar que se pode encontrar um telos (ponto de caráter atrativo) que encontra retrospectivamente um sentido para a história.

 

            Como? Sugerindo que mesmo os acontecimentos mais caóticos podem estar contribuindo para a realização de um objetivo que só a posteriori se revelará no tempo-espaço, pois tudo está em nosso planeta intimamente relacionado. Ieda Lebensztayn que assina a orelha da obra bem salienta: 

 

“Adentrar um espaço e dar-se conta de que suas paredes, as plantas e os antecedentes dos animais nele presentes recebera, o olhar e os cuidados de pessoas remotas, porém tão próximas em seus sonhos, conflitos e angústias: essa a poesia que atravessa Outras paragens”.

 

            O autor joga também com um anacronismo proposital, cheio de intencionalidades ao incorporar técnicas do disfarce na arte literária, incumbindo-se de emprestar ao leitor elementos de confrontação de ideias convencionais e modelos de interpretação do mundo, induzindo-o ao debate e a crítica. Ótimo! Horizontes existem para serem devassados, alargados. Vamos ao texto. Duas passagens apenas sobre o tempo, esse senhor dos destinos.

 

 (Ilustração - Gabriela Brioschi)

 

            “E Tomei ouve agora uma frase na voz do jesuíta, ainda no tempo em que fizeram juntos a longa travessia [1760] pelo sertão, para chegar ao São Francisco:

- E pode-se pensar que só existe mesmo o presente, sendo todos os outros tempos o seu prolongamento de dentro da memória… Mas também que ele não exista – se formos pensar cientificamente – , não passando de um ponto de equilíbrio, puramente abstrato, entre passado e futuro...” p. 176.

 

            E o tempo passa e passa, até que mais adiante, um seu descendente, Antoninho, por volta de 1915, tem um sonho e neste, alguém lhe sopra:

 

            “- E tudo que se desloca – e tudo sim se desloca, o tempo todo, assim como o próprio espaço e seu observador: tudo em um espaço-tempo que está junto com ele, nele e é dele… –, como se deve lembrar, está dentro de um tempo que é variável, e por isso pode ser chamado de quarta dimensão. Aqui mesmo, onde se ocupa o espaço de uma casa, infinitas (ou tantas fragmentações como se possa dividir o tempo…) coisas já passaram, em um “agora” de plantas, insetos, dinossauros, índios, bandeirantes paulistas, e outros mais recentes...” p. 423.

 

          Essas e outras provocações importantes são feitas no romance. Como se vê, não se trata somente de uma história familiar.

 

            Paul Ricoeur afirmou certa feita que a “finalidade de toda forma narrativa é contribuir à compreensão de si”. E, seguindo essa linha, podemos pensar que este romance é uma narrativa que de certa forma, discorre sobre nós mesmos e pelo qual haveremos de nos compreender melhor. Do século XVIII ao XXI (contando de Antônio Tomei ao próprio autor, ele mesmo um descendente), desfila ante nossos olhos um mosaico de nossa história mestiça com traços dos diversos elementos que a compuseram e onde está gravado, para além da saga familiar, certas concepções existenciais – atente-se para os questionamentos sobre a sabedoria na obra –, conferindo por vezes, e isso é importante frisar, um senso de protagonismo histórico de nosso povo. Aquela ideia de que nossa constituição cultural, por mais múltipla que possa ser, é também o que a torna única e unifica.

 

            “Outras paragens” sugere, se não confirma, uma deliberada intenção: romper pela estesia (capacidade de perceber sensações, sensibilidade), e pelo deleite estético, com os sistemas estáveis  (ou consolidados) de escrita, antes adotando o espinhoso caminho das experimentações formais. Seja por meio de neologismos, metáforas, meta-narrativas, ou mesmo pelo descosimento franco, corajoso e até controvertido da realidade sedimentada no nível linear, meramente referencial.

 

            Fica à posteridade, com o salutar distanciamento temporal que ela impõe, os desdobramentos de recepção e crítica que uma obra de tal natureza terá. O certo, o imediato e o inquestionável hoje, aqui e agora, é que o livro persegue um fio contínuo de esperança em nossa vaga humanidade.

 

        Em tempo: O título dessa resenha foi inspirado na letra da música: “De onde vem o baião” de Gilberto Gil, utilizada na obra, p. 272. E o livro encontra-se à venda em: www.laranjaoriginal.com.br/outrasparagens

 

 

Krishnamurti Góes dos Anjos. Escritor, Pesquisador. Autor de: Il Crime dei Caminho Novo – Romance Histórico, Gato de Telhado – Contos, Um Novo Século – Contos,  Embriagado Intelecto e outros contos e Doze Contos & meio Poema. Tem participação em 22 Coletâneas e antologias, algumas resultantes de Prêmios Literários. Possui textos publicados em revistas no Brasil, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. Seu último livro publicado pela editora portuguesa Chiado, – O Touro do rebanho –Romance histórico, obteve o primeiro lugar no Concurso Internacional -  Prêmio José de Alencar, da União Brasileira de Escritores UBE/RJ em 2014, na categoria Romance.

 

 

 

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