Há um ponto em que a palavra deixa de explicar e passa apenas a insistir. É ali que este livro se instala. Não no relato, não na memória organizada, mas nesse lugar em que escrever se torna um gesto repetido contra algo que não cede. O que se lê em A Invenção da Dor nasce dessa insistência: uma escrita que retorna, varia, contorna, recua e avança, como quem sabe que não há linha reta possível.
Fabrício Hoffmann trabalha a linguagem como quem trabalha a terra dura, sem promessa de colheita. As formas surgem e se desfazem, severas, excessivas, deliberadamente instáveis. O poema clássico aparece não como abrigo, mas como prova; o fragmento, não como fuga, mas como consequência. Nada aqui se acomoda. Cada texto carrega a marca de uma luta silenciosa entre controle e ruptura, entre o desejo de forma e aquilo que a corrói por dentro.
O sujeito que atravessa o livro não busca ser compreendido. Ele se observa, se desautoriza, se contradiz, permanece. Há ironia, violência verbal, momentos de suspensão quase mineral. O tom oscila mas a ética é uma só: não suavizar. A escrita se recusa a funcionar como consolo, confissão ou espetáculo da dor. O que está em jogo é outra coisa: a permanência da linguagem quando já não se espera redenção.
Ao final, não há resolução, apenas um tipo raro de quietude. Não a paz, mas a aceitação de que palavra e silêncio respiram juntos, de que escrever é ficar, mesmo quando tudo empurra para a dispersão. A Invenção da Dor é um livro que se sustenta nesse lugar estreito, onde a literatura não promete saída, mas oferece forma ao que insiste em permanecer.
Renata Py
FICHA TÉCNICA
Poesia
Formato 14 x 21 cm
Páginas 88
ISBN 978-65-5312-043-3
top of page
R$ 60,00Preço
Nossos livros
bottom of page








































