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  • Entrevista Laura Carrillo Palacios - Livro: Fragor

    Laura Carrillo Palacios (Burgos, Espanha, 1993) é uma psicóloga especializada em género e migrações. Autora de várias investigações sobre a temática do tráfico humano e das pessoas refugiadas por motivos de gênero ou orientação sexual. Viveu na Bélgica, Bulgária e Mauritânia, onde pôde unir a psicologia com a ajuda humanitária. Em 2020, publicou El Baile de Los Girasoles, o seu primeiro livro de poesia, na editora espanhola Gato Encerrado. Nesse mesmo ano, ganhou o prémio no concurso de Arte Jovem: Jovens Artistas de Castela e Leão com o livro de poesia Las Mil Lunas de Mauritânia. Lançará no dia 15 de junho, às 15h, pelo canal do YouTube da editora Laranja Original, o livro de poesias Fragor. Laura, o seu trabalho como psicóloga especializada em género e migrações é muito bonito. Me fascinou a sua experiência em Mauritânia, país do noroeste da Àfrica, com mulheres que sofrem violências brutais como a mutilação genital. Conte-nos um pouco sobre como essas vivências influenciam a sua poesia. Muito obrigado, Renata, pelo seu interesse no meu trabalho. A verdade é que o fato de me dedicar à saúde mental no campo humanitário me ofereceu muitas oportunidades de aprendizado em diferentes áreas da minha vida, o que teve um grande impacto nos meus escritos. Por um lado participei de pesquisas psicossociais e na redação de artigos sobre grupos em situação de vulnerabilidade, com especial ênfase em mulheres e migrantes. Por outro lado uma voz poética emergiu há anos quando as realidades que conheci transcendem e despertam tantas emoções e certezas. Indo mais longe, acredito que o despertar espiritual que pode ser observado em alguns dos meus poemas é o resultado da lágrima que experimentei quando vi a injustiça e a crueldade deste mundo ao olhar através dos olhos desses sobreviventes da violência com quem trabalhei. Primeiro, foi a dor. Então a percepção de que essa dor não ia ajudar nada, nem para os outros, nem para mim mesmo; a cura é um processo muito longo e para mim faz sentido se for abordado não só do plano psicológico, mas também do espiritual. Quando a sabedoria do Todos Somos Um eclodiu em mim, comecei a interpretar a vida de uma maneira diferente. Menos da cabeça, longe do meu ceticismo habitual, e mais do próprio Eu. Muitas vezes eu esqueço essas lições, eu me enrosco novamente na agitação da mente e eu tenho que me reconectar. Além da meditação, ler e escrever me ajudam muito. A poesia é o grito da alma que nos desperta do sonho em que mergulhamos. Fragor - um ruído, um estrondo, um grito. O seu livro é um desabafo dos tempos atuais que nos geram tantas complexidades, resumindo-se bem na palavra “Fragor”? É uma pergunta muito boa. A sério, acho que é um excesso de tudo. Como disse, vivemos em tempos complexos, mas quando foram fáceis? Não há dúvida sobre o que acontece à nossa volta nos afeta e, se a nível cognitivo o interpretarmos negativamente, as reações emocionais e comportamentais que surgirão serão possivelmente dolorosas e não muito adaptáveis. No entanto, mesmo nas ocasiões em que tudo parece bem, a nossa mente gosta de boicotar essa paz e de procurar continuamente problemas. É preciso gerar pensamentos bons, deixar de encontrar complicações e propor possíveis soluções. Se tudo está bem como está, a sua própria existência está em jogo. Este barulho é o que quero dizer. O ruído mental que nunca cessa, até que finalmente o faça. Então, uma ruptura com o ego ocorre, o rugido emerge, o grito da alma que mencionei antes. Depois dele, verdade e calma. Fragor surge para dar voz a tudo isto, como uma continuação natural do livro de poesia Silente, de Sandra Santos. Sandra e eu nos conhecemos há muito tempo e sempre vimos como havia um contraste entre a poesia dela e a minha. O dela é sutil e delicado, e o meu sempre foi mais alto e mais barroco. Queríamos oferecer esta polaridade ao leitor. No entanto, percebi, enquanto escrevia, que também havia uma evolução na minha poesia. Em momentos de caos mental, a minha poesia era ruído, ruído, mas naqueles em que a minha mente alcançou uma maior ligação com o Universo, com o Único, com o Todo, também se tornou mais calmo e silencioso. Sofri e apreciei esta evolução. O seu livro abre lindamente com a frase: “A Ele, que o amor encarna”. Fale sobre ela? Esta frase é uma dupla dedicação. Foi escrito com o meu parceiro de vida, que me ensina todos os dias sobre o amor no reino do casal da forma mais doce possível. Mas não estou apenas a dirigir-me à sua pessoa, mas ao seu Ser, a parte sagrada que abriga e coleciona o verdadeiro amor. Não só o terreno e o familiar, mas o AMOR com letras maiúsculas para todos os seres do mundo. Esse amor não pode ser encarnado num nome próprio, mas no próprio Ser. Nele. Um dos trechos do seu livro me emocionou bastante e me lembrou a filosofia budista: “É quando a maré da vida nos faz balançar, na sua dança incerta, que as melhores coisas nos começam a acontecer. No entanto, se a dor não atingir o tutano, a roda de samsara recomeça, até que a tempestade arrase tudo. Debaixo da terra, a calma absoluta” É sobre saber lidar e encarar o sofrimento como forma de amadurecimento para enfim um possível encontro com a paz e sabedoria? Fale um pouco sobre a sua inspiração nesse trecho? Este trecho diz respeito a tudo o que mencionei acima. Quando sofremos e, de alguma forma, esse sofrimento nos obriga a decompor-nos para continuar, podemos receber certas revelações e apreciar a existência de uma forma mais fluida e saudável. Estamos mais receptivos para coisas especiais acontecendo, ouvimos mais a nós mesmos, aos outros, à natureza. No entanto, tudo é temporário. Quando começamos a nos sentir melhor, embalamos a concha humana novamente e enterramos muitas lições aprendidas. Não significa que não aprendemos nada, mas esquecemos a coisa mais importante. Respire. É preciso estar, ser. Amadurecer ajuda-nos a encontrar momentos de paz e sabedoria com mais frequência. Embora no livro eu fale de Verdade e Calma como um lugar definitivo para chegar depois de todo o processo de lidar com o sofrimento, a realidade é que muito poucas pessoas conseguem alcançar esse estado de nirvana. A maioria de nós só pode vislumbrar de vez em quando pequenos momentos de iluminação, que desaparecem novamente, consumidos pela ilusão da vida. Mesmo assim, acredito que devemos sempre caminhar com esse olhar consciente, fazendo do Amor o caminho e o destino. Outro trecho que me marcou bastante foi: “Germinei sementes em forma de canções e sorrisos que outros me deram” Me invoca a fase da evolução do ser, quando ainda não estamos prontos a seguir por nós mesmos sem que injetem sonhos na gente. Acha que nos roubam a alma quando deixamos que ditem regras? O parágrafo em si não se refere exatamente ao que menciona, embora seja uma ideia muito interessante. O que quero expressar é, simplesmente, que somos alimentados pelo que os outros nos oferecem. Como seres humanos, não podemos viver isolados ou nos criarmos sem a entrada dos outros. Somos a soma de todas as conversas, canções, leituras, risos, carícias que damos e recebemos dos outros. Para responder à sua pregunta - é muito perigoso e prejudicial ser forçado a respeitar regras em que não acreditamos e agir de uma forma que não seja coerente com os nossos ideais. Mas acho que não podem roubar as nossas almas. O que é a alma? Embora fale continuamente disso num sentido poético, não acredito na existência do ponto de vista judaico-cristão. Acredito no Eu, que é perfeito, eterno e invulnerável. Não pode ser roubado, danificado, apagado ou gerado. Está em todo o lado e em lugar nenhum. Então, mais do que roubar a nossa "alma", pode dificultar-nos a encontrar o Eu. Se vivemos num ambiente insano, capitalista e superficial, é mais difícil para nós ter a oportunidade de mergulhar no que é verdadeiramente importante. Esta sociedade inventa necessidades supérfluas que perpetuam consumos excessivos e antiéticos. Querem nos anestesiar. Se acordarmos do sono e começarmos a viver conscientemente, o sistema perde. Já pensou em musicar os seus poemas? Vi em muitos deles ótimas melodias, como no trecho: “A minha alma é um diálogo entre as estrelas e o meu umbigo.” Que bom que perguntou isso! É uma ideia que está à minha volta há algum tempo. Estou pensando em preparar um evento musical de poesia com violão em Burgos, a minha cidade natal, com o meu irmão, que é músico. Da mesma forma, quero fazer a apresentação de Fragor em Madrid com alguns amigos músicos. Estamos agora trabalhando nisso. Espero que saia um trabalho bonito! Seu livro está sabiamente separado em trechos: - I – “Antes da tempestade” - II – “O Ruído” - III – “Mas este fragor nos levará” - IV – “À verdade e à calma”. Nos leva à profundas indagações sobre o caminho da vida. Em alguns momentos, desoladores, e outros com bastante esperança. É lindo observar pela sua trajetória de vida a esperança na existência. Por isso, Laura, te agradeço. Fale sobre essa divisão de capítulos. Agradeço a você, Renata, por ter a sensibilidade para lê-lo. Suponho que muitas vezes oscilo entre o desespero e a esperança, mas felizmente as escamas acabam sempre por inclinar-se para o amor e a vida. Se eu for mais longe e me guiar pela filosofia do Todos Somos Um, noto que esta dualidade não existe. De alguma forma, tudo está contido em tudo. Escuridão e luz. Dia e noite. Saúde e doenças. Vida e morte. Não pode ser de outra forma. A divisão de capítulos resume tudo aquilo sobre o que temos comentado. O primeiro, Antes da Tempestade, reflete a tranquilidade que pensamos sentir depois de ter tido alguma experiência intensa. Adquirimos um certo grau de sabedoria, não há dúvida, mas acreditamos que percorremos um longo caminho quando ainda estamos longe de atingir a maturidade espiritual. A segunda parte, "O Barulho”, fica-se a saber que ainda estamos presos na roda da paixão, do desejo, do apego, da matéria. Ainda está a sofrer. A terceira parte é o Fragor, como o título do livro, a bola de máscaras acabou, mas estamos relutantes em aceitar isso e revelar a nossa verdadeira identidade. Essa resistência gera mais sofrimento do que qualquer evento traumático que nos pode acontecer. A quarta parte é novamente Verdade e Calma. Há uma evolução muito mais genuína, pois a dor foi aceita como uma parte inevitável da viagem. Tenho uma visão particular da ideia de Deus que não corresponde a nenhuma religião, mas com uma energia criativa da qual todos fazemos parte. Cada pessoa tem um nível diferente de consciência e tem que percorrer o caminho da libertação sozinho, mesmo que possa ser apoiado e inspirado por outros seres vivos. É nesta última parte que o ruído começa a cessar e o silêncio das cinzas emerge. É preciso urgentemente transcender? Krishnamurti Góes dos Anjos diz no seu maravilhoso posfácio: "Avançar significa deixar de lado, para o uso da vida prática, a nossa psique exterior e superficial, razão, pois só com a psique interior que está nas entranhas do nosso ser, seremos capazes de compreender a realidade mais verdadeira que está nas profundezas das coisas." Não gosto de determinar as necessidades dos outros, mas se há uma coisa em que todos concordamos, é que cada indivíduo precisa ser feliz. Que a felicidade não virá de coisas materiais, por mais que a sociedade não deixe de enviar mensagens erradas fazendo com que as pessoas acreditem nelas. Podemos ter muito dinheiro, fazer muitas atividades, ter corpos fabulosos, sucesso profissional, mas nada disso vai nos fazer sentir muito felizes. A única coisa que podemos fazer é começar a viver de uma forma consciente. Sentir o Eu. Nessa altura, deixaremos de precisar de qualquer coisa que não seja estritamente básica para a sobrevivência. Não é fácil manter o estado de consciência, mas alcançar momentos de lucidez já é uma conquista incrível que pode ter repercussões muito positivas no dia-a-dia. Faça-nos discernir o essencial do que não é. Transcenda o ego e o apego. Apenas ser! Laura, se me permite um spoiler, deixaria a seguinte frase: “Resgata o sagrado que há em ti”. É necessário esse resgate? Eu creio que sim. Claro que sim! Todos nós temos uma parte sagrada se prestarmos atenção – sempre está ali. Na realidade não é necessário resgatá-la, somente libertar a nós mesmos da ignorancia de não sermos conscientes da nossa existencia. Laura, muito obrigada pela sua arte e o seu tempo para responder essa entrevista. Fragor me comoveu bastante! Deixo um espaço para falar sobre o lançamento , projetos e qualquer coisa que queira. Eu que agradeço. Foi uma entrevista muito agradável, com muitas reflexões e aprendizagens. É um prazer poder aprofundar a mensagem que a poesia nos dá. Muitas pessoas não aproveitam o tempo para fazer isso e não conseguem apreciar, porque acham que é aborrecido, abstrato, inútil ou uma perda de tempo. Mas devemos ter sempre tempo para aquilo que acaricia a nossa "alma" e nos desperta da letargia. Quanto aos eventos, no dia 15 de junho temos um lançamento online e ao vivo do livro, também em formato bilíngue luso-espanhol, para não perder a essência! Haverá também vários convidados especiais. No final do próximo mês espero poder apresentá-lo também em Madrid e, depois do verão, em Burgos ou em outros locais. Quem sabe? Agora, depois de uma pausa após o regresso da Mauritânia, estou a trabalhar numa organização espanhola como psicóloga com refugiados e candidatos à proteção internacional. A intensidade da obra altera um pouco as energias literárias, mas estou a acumular experiências para as colocar no papel no futuro. Claro, é possível que o meu próximo livro seja um romance em vez de uma coleção de poemas. Vou mantê-los atualizados! Muito obrigado e um grande abraço. 😊 Para conhecer o livro Fragor, basta acessar: Fragor | laranja-original (laranjaoriginal.com.br)

  • Entrevista Aline Morena - Livro: Aline Morena por Hermeto Pascoal

    Aline Morena, gaúcha de Erechim (RS), é cantora, multi-instrumentista (piano, viola caipira, percussão corporal e pandeiro), compositora, professora de canto e bacharel em canto pela Universidade de Passo Fundo/RS. Criativa, já criou melodias para poesias de Mário Quintana, Cecília Meireles e Carlos Drummond de Andrade. Após realizar o show “Hermeto em Voz para Dançar”, só com a obra de Hermeto Pascoal, acabou conhecendo-o num workshop em Londrina, PR. A musicista, então, passou a excursionar com Hermeto Pascoal, trabalhando nas diversas formações musicais da banda pelo mundo, inclusive em duo. Após muitos shows, muitas gravações e anos como companheira do músico, Aline nos traz o livro Aline Morena por Hermeto Pascoal, que terá o pré-lançamento no dia 03 de março, pelo canal do YouTube da editora Laranja Original. Aline, descobri que é Morena em homenagem ao Dorival Caymmi. Aproveitando, gostaria muito que nos contasse sobre as suas influências, desde criança. Você estuda música desde os 10 anos e chegou até a cantar em igrejas. Conte pra gente; como e de que forma, tão nova, a música chegou em você? O nome artístico ALINE MORENA escolhi quando vim morar em Curitiba em 2002, por causa da música “Rosa Morena”, do Dorival Caymmi. Amo cantar e dançar e tenho uma alma muito alegre. Foi emocionante, através da sua pergunta, lembrar dessa música e o quanto ela me representa. Fica o meu compromisso de gravá-la no próximo CD. Apenas teoria musical é que comecei a aprender com 10 anos de idade, quando comecei a fazer aulas de piano clássico. Uma chatice enorme. Fiz dois anos. Aprendia fácil, tirava ótimas notas. Mas preferia ficar ouvindo minha amiga tentar tirar música de ouvido a ficar estudando as partituras. Aí, preferi ficar só cantando mesmo, primeiro no Orfeão da escola, aos 13 anos já comecei a ser profissional da música, cantando em casamentos, bodas... cantei por 5 anos no Coral Municipal de Erechim, que foi muito importante na minha formação musical, inclusive dediquei a faixa “Te Quiero”, faixa bônus do meu novo CD digital ALINE MORENA CONVIDA para o regente do Coral, o Zé Luis da Silva - in memorian. Não é a gente que escolhe a Música. Ela nos escolhe. A gente já nasce com ela. Depois, apenas coloca em prática o que carregamos dentro da gente. Você conheceu o Hermeto graças a um concurso para cantores pelo Conservatório de MPB de Curitiba. A partir dali se dedicou exclusivamente às obras do músico. Logo o conheceu pessoalmente e já começou a trabalhar diretamente com ele. Como se sentiu nesses primeiros contatos? Não foi bem assim. Não foi graças ao concurso que conheci o Hermeto. Conheci o Hermeto pessoalmente porque fui no workshop dele em Londrina, dia 19 de outubro de 2002, na área externa da Universidade de Londrina. E no dia seguinte, dei uma canja no show com seu grupo em Maringá. Dois meses após ter realizado o show “Hermeto em Voz para Dançar”. Esse show, sim, eu realizei porque passei no Concurso para cantores/as à época, dentro do projeto “Domingo Onze e Meia”, do Conservatório de MPB de Curitiba. No dia seguinte ao show em Maringá fui para o Rio com o Hermeto no intuito de ensaiar com o irmão dele, o Elísio, já que havia comentado com o Hermeto que estava chateada com os músicos que só queriam saber de trampo... que louco lembrar disso porque atualmente o pensamento de muitos músicos em Curitiba continua o mesmo... sobre como me senti nos primeiros contatos, senti logo a afinidade espiritual nossa, uma afinidade incrível e senti que não estava somente conhecendo pessoalmente um músico extraordinário, mas também um ser humano extraordinário. Aline, esse trabalho faz parte de um percurso da sua vida, de uma história de amor, de um trabalho sensível e bonito. Conte-nos como foi receber um presente tão especial? Essa convivência de 12 anos nossa como casal e 13 anos apresentando-me em todas as suas formações, ter gravado dois CDs e um DVD em duo com ele, ter produzido o DVD solo de HERMETO BRINCANDO DE CORPO E ALMA, ter sido dirigida por ele em meu primeiro CD solo “Sensações” e agora ter tido a participação dele numa faixa do meu novo CD digital ‘ALINE MORENA CONVIDA’, conversando com ele por telefone durante todo o processo de gravação do CD é uma dádiva, um privilégio da Deusa MÚSICA pra mim, e, ao mesmo tempo, gera muita inveja, o que faz com que tudo, na minha vida artística, demore muito mais pra acontecer. Muita gente que promove a cultura no Brasil tentando de todas as formas ignorar a minha existência... e o público, que nada tem a ver com as conveniências dos “ditadores” do mercado da Música no Brasil, acaba se acostumando com a porcaria que vomitam diariamente nas rádios ou achando que só existem os grandes artistas das gerações mais antigas e nada mais que preste... mas a minha resposta a tudo isso é que o pouco bem feito e com Deus é muito e o muito a qualquer preço, sem essência e sem escrúpulos, é nada! Sei que já criou melodias para poesias de Mário Quintana, Cecília Meireles e Carlos Drummond de Andrade? Literatura e música estão conectadas, na sua opinião? Pode nos deixar um dos trechinhos da obra desses artistas que escolheu para musicar? A poesia é uma arte completa por si só, bem como a música é uma arte completa por si só. Mas quando se unem, podem formar uma dupla maravilhosa! Musiquei poesias do Mário Quintana para o espetáculo Louzada, sobre a obra dele, a convite do Centro de Multimeios da Universidade de Passo Fundo, onde cursei o Bacharelado em Canto e a Licenciatura Plena em Música (não tenho o diploma dessa segunda graduação porque comecei a dar aulas logo e acabei não realizando o estágio da Licenciatura). Aí vão dois links pra quem quiser ouvir algumas dessas composições: https://www.instagram.com/tv/CJvtTgBFyQ9/?utm_source=ig_web_copy_link e https://www.instagram.com/tv/CJvuBkyl96r/?utm_source=ig_web_copy_link. Nesses casos, tive que me colocar no lugar do Mário Quintana pra sentir o que ele sentia e então musicar suas poesias. No caso do Carlos Drummond de Andrade, com o qual muito me identifico, musiquei a poesia “Mão Dadas” (vou cantar e tocar ela na live do dia 03/03 para conhecerem): Mãos Dadas (Carlos Drummond de Andrade) Não serei o poeta de um mundo caduco Também não cantarei o mundo futuro Estou preso à vida e olho meus companheiros Estão taciturnos mas nutrem grandes esperanças Entre eles, considero a enorme realidade O presente é tão grande, não nos afastemos Não nos afastemos muito, vamos de mãos dadas Não serei o cantor de uma mulher, de uma história Não direi os suspiros ao anoitecer, a paisagem vista da janela Não distribuirei entorpecentes ou cartas de suicida Não fugirei para as ilhas nem serei raptado por serafins O tempo é a minha matéria, o tempo presente, os homens presentes A vida presente Conte um pouco sobre essa dupla "Chimarrão com Rapadura"? Surgiu sem qualquer premeditação minha ou do Hermeto. Essa resposta, melhor deixar pra live, com a presença do próprio Hermeto. Aline, vocês já viajaram o mundo. Como é a vida na estrada? Algum episódio inusitado para contar? Você gosta de excursionar? Viajar para passear em férias é bem diferente de viajar a trabalho. Nas viagens a trabalho, no caso dos shows, muitas vezes você acaba conhecendo apenas o hotel, o teatro e o aeroporto. E as quadras em volta do hotel ou do teatro... ambas as viagens são importantes, mas são situações diferentes. Amo viajar, principalmente, de carro e de trem. Desde 2018 você apresenta a peça infantil “A História Musicada do Menino Sinhô Hermeto Pascoal”, em parceria com o palhaço Propício, onde contam toda a trajetória do Hermeto, fazendo música com instrumentos convencionais e não- convencionais. Como é a experiência musical com o público infantil? Cursei Magistério como 2º Grau. Comecei a dar aulas de Musicalização em escola particular no Rio Grande do Sul com 18 anos de idade. Regi coro infantil e infanto-juvenil no RS. Depois, com o Hermeto, ajudei ele em muitos workshops para crianças. Desde 2018 venho realizando a parceria com o Palhaço Propício nos palcos e na vida, sendo que a primeira peça que criamos foi essa contando a história do Hermeto para crianças. Já realizamos quatro peças juntos: A HISTÓRIA MUSICADA DO MENINO SINHÔ HERMETO PASCOAL, O DESCONCERTO MUSICAL, UM NATAL BRASILEIRO e O PALHAÇO RABUGENTO REJUVENESCEU?. Também dou aulas particulares de Canto e workshops de Canto e Percussão Corporal para crianças, como no Nhundiaquara Jazz Festival, em Morretes/Pr, em 2019. Simplesmente amo trabalhar com crianças e adolescentes. Amo dar aula de Canto. Em 2010, veio o segundo cd em duo com o Hermeto, chamado "Bodas de Latão", para comemorar 7 anos de relacionamento. Como é a sensação de comemorar o amor musicando por aí? Não sei se existe algo melhor a comemorar que o AMOR. Amor em toda a sua abrangência. Aline, sobre o álbum digital e show Aline Morena Convida! Conte-nos de todo o processo de trabalho, gravação e por aí vai. A gravação se deu ao longo de cinco meses, em 2021. Aproveitei o período do auge da pandemia para gravar. Foram 50 convidados. Sou muito suspeita em falar. Tem música para todos os gostos. Estreei como arranjadora. O álbum se encontra nas plataformas digitais através deste link: https://tratore.ffm.to/alinemorenaconvida. A faixa-bônus encontra-se neste link: https://tratore.ffm.to/tequiero O vídeo- bônus, com o Palhaço Propício, encontra-se neste link: https://youtu.be/x3qmsVa-jLI Estou em plena organização dos shows de lançamento. Dia 29 de janeiro era pra ter acontecido o show dentro da programação oficial da Oficina de Música de Curitiba, no Teatro Paiol. Adiaram a Oficina inteira e assim que avisarem a nova data do show, divulgarei. Na live terei mais novidades sobre os demais shows. Aline, muito obrigada pelo seu tempo, deixo esse espaço para você nos informar sobre agenda, trabalhos, projetos e dizer onde o pessoal pode encontrar você nas redes sociais. Eternamente grata à editora Laranja Original por estar disponibilizando tão importante material de Música no Brasil, a edição brasileira do livro com duzentas composições do Hermeto intitulado ‘ALINE MORENA POR HERMETO PASCOAL’. Esse título se deve ao fato de as 200 composições do Hermeto serem dedicadas à Aline Morena, de ‘Aline Morena 1’ a ‘Aline Morena 200’! Nos vemos na live. Assunto e Música é o que não vai faltar

  • Entrevista Ian Uviedo - Livro: Café-teatro.

    Ian Uviedo é um jovem escritor, artista e amante da literatura. Seu mais novo projeto, o livro Café-teatro, será lançado pela editora Laranja Original. A live de pré-lançamento ocorrerá no dia 30 de Janeiro, a partir das 19:30, no canal do YouTube da Laranja Original, e contará com a presença dos convidados Marcelino Freire, Mário Bortolotto, Julia Codo e Helena Machado. O lançamento presencial será no dia 5 de fevereiro, das 16h às 00h, na Ria Livraria, na rua Marinho Falcão, 58, Vila Madalena. Ian já publicou o livro Éter, novela de narcolepsia (Ed. de Los Bugres, 2019). De forma independente, publicou uma dúzia de zines que variam entre contos, poesia, fotografia experimental e livro de artista. Já levou suas performances poéticas para diversos palcos do país e se apresentou ao lado de artistas como Juçara Marçal, Lúcio Maia e Paulo Lepetit, além de ter sido convidado para integrar a mostra Falares, pertencente ao acervo permanente do Museu da Língua Portuguesa. É editor da revista eletrônica RevistaRia. Faz experimentos audiovisuais e em 2020 teve uma série de videopoemas publicados na revista Saccades, da Califórnia. Também, em 2020, foi indicado pela revista Forbes como uma das personalidades de maior destaque da cena literária e poética brasileira com menos de 30 anos. Vive em São Paulo. Ian, Café-teatro é altamente visual e cênico. Trazendo em evidência o que existe de mais charmoso em São Paulo, como em trechos: “Ela morava em um prédio velho no centro de São Paulo, sem elevador, e quanto mais eu avançasse pelas escadas, quanto mais se dilatassem as pupilas, o escuro permanecia imóvel” – “As luzes do Viaduto do Chá, interceptadas pela sombra do Teatro Municipal”. Conte qual a importância dessa cidade na sua escrita? Como um paulistano que tenta viver a cidade de forma intensa, gosto de pensar que São Paulo está no centro de tudo o que escrevo. Quando digo “de forma intensa”, me refiro a coisas pequenas, mínimas, como se propor a fazer a pé todos os percursos, dos mais curtos aos mais longos. Isso inevitavelmente aguça sua sensibilidade para o movimento e para a dinâmica do espaço que você habita. O próprio Café-teatro, por exemplo, é um lugar real, espremido entre lojas e prédios no centro da cidade, que fica na mesma rua de um bar onde aconteciam leituras poéticas nas quais eu pertencia ao elenco fixo. Se eu me limitasse a cumprir o itinerário casa – bar de táxi, digamos, esse lugar, que não é nem um café nem um teatro, certamente teria passado despercebido. Colocar a cidade pela qual você se move como ponto de partida para a criação, numa perspectiva latino-americana (e essa conversa não é de hoje, a discussão vai de Jorge Luis Borges a Ricardo Piglia), é uma reivindicação do espaço “terceiro mundista” como elemento de alto valor literário. Quando nomeio cada um dos prédios, cada uma das ruas e cada um dos bairros a que o narrador se refere ao longo da narrativa, estou realizando o mesmo que autores como Henry Miller, Cortázar e Hemingway – para ficar em exemplos conhecidos – fizeram com sua Paris encantada, sem, no entanto, terem que passar pelo estranhamento. Gosto de pensar neste novo romance, entre outras coisas, como um livro sobre o desaparecimento, uma homenagem ao efêmero. E São Paulo, em seu ritmo desenvolvimentista e atropelado, repleta de cenários cujo único destino é a deterioração, configura a cidade perfeita para observar o esquecimento, uma cidade em que a única forma poética possível é a elegia. Inscrever histórias nessa paisagem é uma forma de fincar estacas na maré avassaladora que constrói prédios na mesma velocidade em que os destrói. Para mim, a frase definidora está em um dos mais emblemáticos sambas de um dos mais emblemáticos paulistanos, Adoniran Barbosa: pegamos todas as nossas coisas/ e fomos para o meio da rua/ apreciar a demolição. Apreciar a demolição. E assim escrever. É fácil notar a afinidade musical da sua escrita, começando pela epígrafe que abre o livro: “Depois caminhando sozinho/ lembrei da ciranda que meu pai cantava” - Gilberto Gil. Fale um pouco da relação do Café-teatro com as suas diversas facetas musicais. Inclusive, li ele inteiro já imaginando uma quantidade enorme de trilhas sonoras experimentais. Acho que o meu primeiro contato com a arte, ou melhor, com a expressão, como quase todas as pessoas, foi por meio da música. Lembro de ouvir Em Ritmo de Aventura, de Roberto Carlos, no toca-discos de meu pai e ficar encantado. Mais tarde, estudei numa escola onde havia um piano, e durante o intervalo, já que não tinha muitos amigos, passava vários minutos explorando as notas, observando os sons. Claro que eu não era como alguns dos outros alunos, que de fato sabiam tocar e sentavam-se, tocavam sonatas e recebiam aplausos dos professores e de outros estudantes. No geral, quando eu tocava, não demorava para aparecer alguém me pedindo para fazer qualquer outra coisa. Mas eu não parava, continuava lá, manufaturando acordes e harmonias, e hoje gosto de pensar na escrita como um desenvolvimento rítmico destes primeiros experimentos. Em muitos casos, sacrifico a concordância e a fluência narrativa em nome de uma “dissonância literária”, por assim dizer, quase um ruído, que ajuda a compor o clima de passagens específicas. É curioso que, para além da epígrafe de Gil, que é de uma música que amo do seu álbum de 1968, chamada O Pé da Roseira, outro vulto musical presente no livro é Bill Evans, o pianista canhoto de Nova Jersey. Evans é quase um personagem do livro; é um elemento subliminarmente fundamental para a narrativa, pelo menos da forma como vejo. Hoje em dia, a música é um fator indispensável para o meu trabalho. Não consigo escrever sem a sensação de isolamento proporcionada por um par de fones de ouvido. Agora mesmo, enquanto respondo a essa pergunta, escuto a I’m so lonesome that i could cry, de Yo La Tengo, mas quando estou escrevendo literatura, não consigo ouvir nada que tenha uma letra, de modo que a história de minha escrita é paralela à história de minha pesquisa de música instrumental. Café-teatro foi embalado ao som dessas músicas, e, pensando nisso, montei uma playlist no Spotify para compor uma sugestão de trilha sonora do livro. Ei-la aqui. Falando em cênico e musical, gostaria um dia de transformar Café-teatro em áudio-visual? Se o Rogério Sganzerla ou o Luís Sérgio Person toparem, vamos nessa. A relação afetiva do personagem principal com a pequena e antiga máquina fotográfica de seu pai é altamente interessante, como no trecho: “Mas o pensamento quando é afetivo só vaga, indiferente às imposições lógicas”. Como se o olhar dele como fotógrafo pudesse retratar um pouco o peso de um passado. Conte-nos sobre a relação do personagem com a antiga máquina fotográfica e as lindas lembranças com o Quero-Quero, o amigo imaginário, entre outras? O Café-teatro é estruturado em três tempos paralelos que confluem para um mesmo ponto e são narrados por um único personagem. Primeiro, temos a história do narrador com Lígia; depois, suas memórias de infância e adolescência; por último, acompanhamos a forma como desenvolveu seu trabalho de fotógrafo. A câmera, uma Olympus 35, é, acredito, o único objeto que atravessa as três instâncias, justamente porque surge como um elemento simbólico da ideia de testemunho. Além disso, a máquina – e isso é só uma leitura – metaforiza a hereditariedade do olhar, uma vez que é passada de pai para filho. No momento em que decidi que o narrador seria um fotógrafo, foi necessária muita pesquisa, colhi diversas informações a respeito da linguagem fotográfica e da mecânica de câmeras, que estão diluídas ao longo do romance. O livro é repleto de ensaios sobre fotografia, um tema que me interessa muitíssimo. Lembro que um dos pontapés iniciais para começar a escrever o Café-teatro foi a fotógrafa norte-americana Vivian Maier, como sua biografia podia ser usada para explorar temas tão caros a este autor: o anonimato, o desaparecimento, o registro do fugaz. No fim, Maier acabou nem aparecendo, mas penso nela como mais um espectro ao redor deste trabalho. Quem conhece a história dela, sabe que isso faz sentido. Para o personagem, a Olympus é a um só tempo um documento de identificação e um caderno. Susan Meiselas, outra fotógrafa norte-americana, disse certa vez que, ao longo de sua trajetória profissional, a câmera funcionou como um passaporte com o qual ela podia entrar em lugares de onde, sem a câmera, seria rapidamente enxotada. O fotógrafo, na sua função de registrar, já parte de um lugar de distanciamento, e acredito que o romance trate bastante disso. Quanto ao quero-quero e ao ensaio sobre o irmão imaginário presente no sexto capítulo, esses são elementos narrativos que pertencem ao campo da imaginação e da construção literária. São parte de um conjunto que tento fazer funcional quando olhado em sua integridade, as imagens correspondendo umas às outras, de forma que seria difícil isolá-los e examiná-los um por um. Posso dizer que a memória é outro tema central no livro. A memória, a distorção da memória, a realidade distorcida por meio da lembrança e o registro como forma de espelhar o tempo em retrospecto. O protagonista se apaixonava pelas mulheres ou pelas fotos delas? É linda a forma como ele era capaz de transformá-las através da lente. Incapaz de apaixonar-se, patologia explicada ao longo do romance por meio de flashbacks de sua infância e adolescência, este perso-narrador se relaciona com as imagens que ele próprio produz. Há uma passagem em que isso fica muito claro, como sua paixão é pela construção de uma imagem irreproduzível, uma paixão tamanha que o faz sentir-se suspenso sobre as tendências humanas do desejo e do tesão. A única mulher por quem se apaixona, Lígia, é a única mulher que não se deixa registrar. Em alguns momentos pude lembrar de Rubem Fonseca. Existe influência? Conte sobre as suas influências? É interessante você dizer isso. Rubem Fonseca foi um daqueles autores que me influenciaram sem eu nem perceber; minha relação com o autor mineiro é bem pouco profunda: tirando alguns contos de uma edição antiga de A Coleira do Cão, não li nada dele. Curiosamente, algumas das pessoas que leram o Café-teatro antes da publicação, pessoas que confio e sabia que seriam leitoras a um só tempo generosas e sinceras, falaram a mesma coisa: me lembrou muito Rubem Fonseca. Quando o Mário Bortolotto escreveu no prefácio que meu livro tratava-se de “literatura brutalista”, engrossou ainda mais essa percepção, tornando-o um romance, digamos, fonsequiano. É claro que agora preciso ler Rubem Fonseca, identificar-me na grandeza de sua obra que, de tão influente, acabou influenciando escritores que nem o leram. Por outro lado, creio que há dois grandes temas no Café-teatro (e em tudo que escrevo) que eram caríssimos ao autor de O Cobrador: o erotismo e a violência. O erotismo e a violência que são, afinal, temas muito latino-americanos, e a partir daí posso começar a falar sobre as minhas influências, porque nesse momento a minha pesquisa literária está focada na literatura latino e hispano-americana. Admiro, então, autores contemporâneos como Fernanda Melchor, Samanta Schweblin, Silvia Molloy, Mario Bellatin, Alejandro Zambra; e autores do século XX, como Roberto Bolaño, Tulio Carella, Ricardo Piglia, Silvina Ocampo, Levrero; enfim: parece pretensão dizer que eles me influenciaram, porque é claro que ainda dou meus primeiros passos num campo onde estes vultos correm sem dificuldade, mas certamente são autores que me inspiram, porque pensam a linguagem a partir da perspectiva latino-americana, uma compreensão que, ao que me parece, ainda falta à literatura brasileira contemporânea, com as exceções de praxe. E, claro, sou influenciado o tempo todo por filmes, músicas, por frases soltas que capturo no ar dessa cidade, nas suas esquinas, nas suas zonas cinzentas. Um retratista rouba almas? Espero que não, mas acho que sim. Ou vice-versa. Ian, gosto do seu palavreado e escolha elegante das suas palavras. Café-teatro tem um refinamento na escrita pouco encontrado. Como se dá o seu processo de escrita e escolha das palavras? O primeiro trabalho é o trabalho frasal. A frase, o tom, surgem antes de tudo, antes até de eu saber sobre o que será a história. Creio que isso está relacionado ao prazer da escrita, ao apreço pela linguagem. Todo livro, afinal, é sobre as possibilidades e os limites da linguagem, e o meu não é diferente. Quando começo uma narrativa, nunca sei como vou direcioná-la, tudo o que tenho são um punhado de imagens, inquietações e dúvidas, de forma que não há pressa e posso ir talhando as frases com todo o tempo do mundo. À medida que a trama se revela e a voz narrativa se pronuncia, o léxico se afunila. E quando termino o livro, com essa voz já definida, o releio tesourando ou substituindo adjetivos, verbos e até substantivos que me parecem dissonantes em relação ao narrador. A forma como uma pessoa se relaciona com a realidade se dá por meio de suas referências, sua biografia, e parte do trabalho do escritor é descobrir quais são as palavras, as construções que sobram de uma vida. Ian, pensei inúmeras vezes em uma forma de falar sobre as fotografias sem dar spoiler. Não consegui achar palavras. Só posso, aguçando a curiosidade do leitor, dizer que foi uma das coisas que mais me apaixonou no livro. Deixo em aberto, para a sua decisão de falar um pouco sobre ou deixar como surpresa. Como assistimos o jogo pela partida, não pelo resultado, não acredito muito em spoilers, mas posso manter a presença das fotografias ainda obscura para o futuro leitor. Posso dizer, porém, que a ideia das fotografias surgiu depois que o livro já estava pronto, a trama terminada. As fotografias são, então, inserts poéticos na narrativa que dão ritmo e separam o livro em partes sem aquela burocracia de parte 1, parte 2, ad infinitum. Todas as fotos estão associadas a momentos chaves da narrativa, creio, mas isso nem sempre se dará de forma explícita. Seja como for, foi só uma ideia que tive. Se eu soubesse de onde vêm as boas ideias, como disse Leonard Cohen, eu iria lá com mais frequência. Café-teatro é para ser lido atento às suas instruções sobre as luminosidades cênicas que nele existem, como no trecho: “Hoje não sei por que, voltando a esta visita, me atenho tanto aos detalhes da luz. Talvez seja porque de algum modo aquela relação específica entre luminosidade e escuridão fosse uma síntese de tudo o que aconteceria entre nós”. Você consegue nos transportar para essa questão facilmente. Fale sobre isso, da importância da luz no seu trabalho? Traindo minha obssessão pela literatura latino-americana, um dos meus autores prediletos e um dos mais importantes para a minha formação, é Scott Fitzgerald. Suave é a Noite foi um dos livros fundamentais para que eu me interessasse pela escrita. Depois disso, lembro que li de cabo a rabo o Estranhos Embora Íntimos, sua coletânea de contos que deve ter umas 700 páginas. Uma das coisas mais impressionantes a respeito de Fitzgerald, na minha opinião, é a forma como ele constrói o clima de suas passagens por meio da iluminação. Próximo como era do cinema, a aproximação faz sentido, indo relacionar-se também com o impressionismo, movimento artístico que prezava o movimento da luz e influenciou tantos cineastas, como por exemplo Akira Kurosawa. E o que Fitzgerald me ensinou, ou pelo menos o que eu entendi, foi o seguinte: não descreva o objeto por meio do próprio objeto: descreva o objeto por meio da luz que incide sobre ele, tornando-o efêmero e, portanto, único. Claro que isso não é uma regra, e sim uma espécie de técnica que funciona para mim mas que para qualquer outra pessoa pode soar bobagem. Falando mais especificamente do Café-teatro, o personagem é um fotógrafo, e, como falei na pergunta 8, sua forma de relacionar-se com as coisas que vê é através da fotografia, isto é, da luz e da sombra. E isso é algo que me interessa, e que sei que é presente na obra de Rubem Fonseca (para me estender um pouco sobre a pergunta 6): a relação das pessoas com o seu ofício, outro tema do Café-teatro, indicado, em parte, por essas descrições sutis que você percebe a respeito da luminosidade e da escuridão. Vejo o seu livro com passagens Noir, cenas em preto e branco, músicas para bons ouvintes, arte - Parabéns, pela riqueza de detalhes tão artísticos. Deixo esse espaço para que conte sobre o lançamento, onde o leitor pode te encontrar e sobre qualquer projeto que queira divulgar. Obrigada, pelas suas respostas e pelo seu livro encantador. Eu que agradeço, Renata. Sorte do escritor que tem uma leitora feito você. Obrigado pela leitura atenta e atenciosa. Acho que não há muito o que ser dito, além de que dia 30/01, às 19h30, teremos um pré-lançamento virtual com Marcelino Freire, Mário Bortolotto, Julia Codo e Helena Machado, escritores que admiro demais; e dia 05/02 um lançamento presencial na Ria Livraria, se tudo der certo, das 16h às 00h. Todos os detalhes sobre o lançamento podem ser encontrados no meu perfil do instagram: @ian_uviedo e quem quiser falar comigo é só escrever no e-mail: ianuviedo09@gmail.com. É isso aí.

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