A porção de infância que nos habita

October 27, 2017

 (imagem de capa do livro 'A infância dos dias' que será lançado no dia 10 de novembro de 2017)

 

 

Um resgate à criança que um dia fomos pode revelar capítulos da nossa história e ajudar na construção da narrativa cheia de sentidos que queremos contar sobre nós mesmos

 

TEXTO Laís Barros Martins

 

A partir de 1987 eu existia. Minha infância foi compartilhada com dois irmãos. Filha do meio, precisei aprender a ocupar essa posição tantas vezes apertada, mas incrível de ser entre. Minha mãe conta que um dia, depois de me dar banho e me trocar, foi fazer o mesmo ainda com os outros dois, como de costume. Quando acabou a tarefa, chamava, chamava por mim, e nada. Eu ouvia, mas não respondia. Estava brincando de me esconder. Uma foto registra esta história, e a minha carinha, sério, é impagável.

 

Tenho disciplina rigorosa em não deixar que esta criança que um dia fui se esconda de modo definitivo, fuja ou seja esquecida. Sigo à risca a missão de mantê-la por perto. Ainda semana passada fui criança. Enquanto escolhia os tomates na feira, ao sentir o sol fazer festa em mim depois de um período de frio chuvoso ou quando corri ao encontro dele, me jogando num abraço gostoso. Os dias pedem a espontaneidade da graça de criança. A gente precisa cuidar deste espaço de afeto, a porção de infância que nos cabe. É urgente. O cantor Leonard Cohen também escreveu livros; em “A brincadeira favorita” (Cosac Naify), ele alerta que “conforme os olhos vão se acostumando a ver, blindam-se contra a fantasia”. A brutalidade da “adulteza”, essa força impositiva que torna tudo tão banalmente comum. Contra isso, fica aqui o meu manifesto em defesa das coisas (extra)ordinárias e como é importante recuperar e conservar a criança que ainda nos habita para evitar o desastre iminente de uma vida feita só de realidade.

 

Redescubra o tempo das coisas

 

Mas, “para resgatar a criança que um dia fomos, precisamos primeiro tê-la perdido”, chama a minha atenção o filósofo e educador Gabriel Limaverde, da equipe de Educação e Cultura da Infância no Alana, organização que busca a garantia das condições para a vivência plena da infância. É que eu estava tentando pensar a infância mais como um modo de ser e estar no mundo do que uma fase ou idade, e ele me ajudou a entender esse paradigma de temporalidade recuperando as raízes gregas das palavras usadas para designar o que hoje chamamos de “tempo”, chrónos e aión: “No nosso tempo adultificado, de relógios e agendas, contado cronologicamente de forma ordenada e contínua, vemos nossa criança interior como passado, portanto ela já não existe. Mas no tempo aiônico, crianceiro e brincante, nunca deixamos de ser criança. Nele, estamos sempre dispostos às descobertas como quando éramos crianças, tudo pode ser (re)feito e (re)construído. O tempo aqui não é numerável ou sentido como uma sucessão de acontecimentos, mas como encantamentos vivenciados”, explica. Para ele, esta visão cronológica marcada por uma divisão nítida entre passado, presente e futuro é que contribui para a impressão de que perdemos nossa criança interior. Assim, “recuperar a nossa criança é em grande parte exercitar nossos sentidos e renovar uma forma de experimentar a vida a partir das intensidades que sentimos, mais do que com base em calendários frenéticos”, conclui o filósofo.

 

“É isso!”, penso. A gente não se perde no meio do caminho, continuamos sendo apenas. Para facilitar este processo de renovação periódica, uma boa estratégia a ser considerada é observar de perto as crianças de hoje, fonte de inspiração inesgotável, com acesso permitido e recomendado. Elas, que ainda são, podem nos fazer lembrar que a gente segue sendo também. Um convite, enfim, a redescobrir e provar as sensações já conhecidas como eternas novidades, mantendo aquele assombro inicial que torna tudo tão mais colorido e quase inédito. No livro de ensaios “E se Obama fosse africano?” (Companhia das Letras), Mia Couto me ajuda a entender definitivamente a infância não como um tempo, uma idade, uma coleção de memórias. Ele escreve: “A infância é quando ainda não é demasiado tarde. É quando estamos disponíveis para nos surpreendermos, para nos deixarmos encantar [...] a infância não é apenas um estágio para a maturidade. É uma janela que, fechada ou aberta, permanece viva dentro de nós”.

 

Cuide bem da sua história

 

Ainda que haja sucesso em levar a vida com a presença da infância não como tempo marcado pelo tique-taque, mas como uma forma de experienciar os acontecimentos com o encanto das novidades e surpresas boas, seguimos sujeitos a transformações. Manter a criança que um dia fomos é um desafio e tanto, sobretudo neste acúmulo de passado que os dias vão nos impondo e com o peso da rotina. Mas só até a gente entender que isso tem a ver com cuidar da nossa essência. Por mais que a gente mude, e isso é bom, sempre seremos essencialmente os mesmos. Acho que a construção de um eu autêntico vem daí. O tempo vai nos moldando cada um a uma forma, e os padrões nunca se repetem. Além da ação transformadora do tempo, somos um apanhado de nossos antepassados e resultado de trocas estabelecidas com todos aqueles com quem nos relacionamos e que contribuem para o desenvolvimento do que a gente é neste dado momento, mas que pode receber nova configuração em breve.

 

A junção de cada “eu” resulta em um todo comum feito de “nós”, uma riqueza universal que não pode ser perdida. É a isso a que se dedica o Museu da Pessoa, que tem como objetivo colecionar histórias de vida de homens e mulheres comuns em seu acervo e reconhecer que toda história tem valor e deve ser considerada um patrimônio. "[...] ouvir o outro é também uma forma de cuidado. Um cuidado que nos leva a aprender com cada história de vida e a descobrir, por trás de cada narrativa, um pouco da alma humana", diz a frase extraída de um texto em comemoração aos 25 anos do lugar. “Estamos continuamente reelaborando nossas experiências. O que define nossa individualidade, o que nos torna únicos, não é apenas nossa trajetória, mas também a forma como elaboramos nossa narrativa pessoal, selecionando o que e como contar”, expõe Lucas Ferreira de Lara, mestre em História Social e coordenador do Programa Conte Sua História do Museu da Pessoa, em São Paulo. É por isso que, para construir uma narrativa coerente capaz de imprimir mais propósito à nossa vida e que, ao ser compartilhada, possa gerar entendimento, escolhemos as palavras, reinterpretamos trechos e editamos capítulos, de forma livre e passível de alterações sempre que necessário. O historiador completa considerando que “não existe uma história de vida igual a outra, e não existe uma única história, fixa e estática, para cada um de nós”. Para ele, “contar e recontar nossa história é um exercício fundamental para nos ajudar a entender quem somos”.

 

Nesse processo de construção das nossas próprias narrativas, o educador Gabriel diferencia como podemos agir inspirados pela medição do tempo cronológico ou por vivências: “A narrativa biográfica que costumamos criar para nossas vidas parte do lugar em que estamos hoje e entende a infância como um elemento que contribuiu para chegarmos até aqui. Vemos o nosso momento de infância com um tijolo que, somado a outros tijolos, formam a casa que construímos. Numa outra visão, menos comum, não deixamos de ser crianças. Nessas biografias, a infância não é um tijolo da nossa casa, mas a nossa vontade de construir a casa, que nunca está pronta – sempre há um cômodo ou uma mudança a fazer, uma parede para derrubar e outra para subir”, explica. Preservar a nossa história e passá-la adiante é uma forma de destacar a nossa essência que invade e perpassa a todos, o que nos aproxima e nos faz parte de um todo compartilhado. Há poesia em olhar para as pessoas e reconhecer esta história comum, porque carrega a essência que é sua e minha, mas também de todo mundo.

 

Colecione mais experiências


O ato de criação da composição das nossas vidas está em constante movimento. Depende da gente permanentemente selecionar as experiências para ir ordenando o que deve ficar registrado na memória de modo que, ao recontar de novo e de novo a nossa história, estejamos dispostos a botar aquele sorriso no rosto para passear, satisfeito. Por isso, ressignificar é um processo imperativo, que pode nos ajudar a cuidar da criança que existe dentro da gente – todo mundo tem a sua. O escritor Márcio Vassallo, mestre em reconhecer a serventia do encantamento que se manifesta no dia a dia, compartilha os truques que desenvolveu para que aquele gostinho bom de infância nos acompanhe. “Sempre careço botar reparo no olho e parar para ver tudo à minha volta, sem pressa, com assombro, perturbação, estranheza e sobressalto. Numa época em que ‘contemplar’ se tornou um verbo fossilizado, escavar brechas dentro da gente para reparar com autenticidade nas coisas aparentemente mais simples e banais é um vício irresistível”, confessa. Para ele, “ressignificar palavras” é um exercício que traz infância para sua vida. “E tudo o que traz infância para mim me tira o sono, me devolve a asa, me reaproxima da poesia que está em toda parte”. Deve ser por isso que crianças muitas vezes, ao atribuir novos significados às palavras, nos ajudam também a nos ressignificar por dentro. É que elas ainda têm a presença do descuido muito viva. Esse exercício pode nos trazer aquele centro desequilibrado que nos devolve a nós mesmos, fazendo-nos “sentir ainda mais próximos das nossas gostagens mais autênticas, dos nossos desejos essenciais, das nossas verdades mais íntimas”, aponta Márcio. Afinal, “não sou eu que mantenho o meu menino por dentro. É ele que me mantém”.

 

Tão bonita essa ideia de troca com a gente mesmo. Ela nos lembra que tudo aquilo que precisamos está bem guardadinho dentro de nós, basta permitir que se manifeste e tome conta, soberano. Um reforço para entender enfim que a criança de ontem ainda somos nós. Hoje, com 30 anos, esta é a história que resolvi contar. Uma história sobre a menina que ainda vive em mim de olhos bem abertos, atentos espreitando o que está por vir, e cheios daquele mesmo brilho de quando eu me escondi para ser encontrada.

 

Laís Barros Martins conserva sua porção de infância com carinho e é autora do livro "A infância dos dias" (Laranja Original).

 

 

Texto publicado na revista Vida Simples, edição 189, novembro 2017.

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