Este livro de Tatiana Eskenazi é feito de elipses, fissuras, rasgos e incisões, na carne e nas palavras. A dicção seca nos obriga a mastigar cada verbo, cada sílaba, cada som. Um a um, em um voo ao rés do chão. Tentamos aterrissar a nossa dor em algum corpo. Habitar uma ferida segura. Furar as infinitas membranas reais e virtuais que nos isolam. Em vão. Ao mesmo tempo visceral e cortante, a escrita de Tatiana vive justamente desse paradoxo. Quanto mais incisiva a dor, mais cru deve ser o modo de dizê-la. Nesta waste land, os vasos se quebram, as paredes têm de ser derrubadas, a Amazônia queima enquanto os cirurgiões reconstroem o quadril do melhor amigo, “entre osso metal e cimento”. Seguindo os passos de seu primeiro livro, seu retrato sem você (2018), a ausência marca o passo de cada poema. É o signo faltante que também paradoxalmente nos humaniza: consciência de nossas infinitas distâncias. Porque, ainda que “todas as ausências se juntem” e “deem lugar a apenas uma grande saudade”, ainda assim essa pode ser uma possibilidade de partilha.

 

(Do posfácio de Rodrigo Petronio – O início da primavera)

Na carcaça da cigarra

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