Entrevista Ian Uviedo - Livro: Café-teatro.





Ian Uviedo é um jovem escritor, artista e amante da literatura. Seu mais novo projeto, o livro Café-teatro, será lançado pela editora Laranja Original. A live de pré-lançamento ocorrerá no dia 30 de Janeiro, a partir das 19:30, no canal do YouTube da Laranja Original, e contará com a presença dos convidados Marcelino Freire, Mário Bortolotto, Julia Codo e Helena Machado. O lançamento presencial será no dia 5 de fevereiro, das 16h às 00h, na Ria Livraria, na rua Marinho Falcão, 58, Vila Madalena. Ian já publicou o livro Éter, novela de narcolepsia (Ed. de Los Bugres, 2019). De forma independente, publicou uma dúzia de zines que variam entre contos, poesia, fotografia experimental e livro de artista. Já levou suas performances poéticas para diversos palcos do país e se apresentou ao lado de artistas como Juçara Marçal, Lúcio Maia e Paulo Lepetit, além de ter sido convidado para integrar a mostra Falares, pertencente ao acervo permanente do Museu da Língua Portuguesa. É editor da revista eletrônica RevistaRia. Faz experimentos audiovisuais e em 2020 teve uma série de videopoemas publicados na revista Saccades, da Califórnia. Também, em 2020, foi indicado pela revista Forbes como uma das personalidades de maior destaque da cena literária e poética brasileira com menos de 30 anos. Vive em São Paulo.


Ian, Café-teatro é altamente visual e cênico. Trazendo em evidência o que existe de mais charmoso em São Paulo, como em trechos: “Ela morava em um prédio velho no centro de São Paulo, sem elevador, e quanto mais eu avançasse pelas escadas, quanto mais se dilatassem as pupilas, o escuro permanecia imóvel” – “As luzes do Viaduto do Chá, interceptadas pela sombra do Teatro Municipal”. Conte qual a importância dessa cidade na sua escrita?


Como um paulistano que tenta viver a cidade de forma intensa, gosto de pensar que São Paulo está no centro de tudo o que escrevo. Quando digo “de forma intensa”, me refiro a coisas pequenas, mínimas, como se propor a fazer a pé todos os percursos, dos mais curtos aos mais longos. Isso inevitavelmente aguça sua sensibilidade para o movimento e para a dinâmica do espaço que você habita. O próprio Café-teatro, por exemplo, é um lugar real, espremido entre lojas e prédios no centro da cidade, que fica na mesma rua de um bar onde aconteciam leituras poéticas nas quais eu pertencia ao elenco fixo. Se eu me limitasse a cumprir o itinerário casa – bar de táxi, digamos, esse lugar, que não é nem um café nem um teatro, certamente teria passado despercebido. Colocar a cidade pela qual você se move como ponto de partida para a criação, numa perspectiva latino-americana (e essa conversa não é de hoje, a discussão vai de Jorge Luis Borges a Ricardo Piglia), é uma reivindicação do espaço “terceiro mundista” como elemento de alto valor literário. Quando nomeio cada um dos prédios, cada uma das ruas e cada um dos bairros a que o narrador se refere ao longo da narrativa, estou realizando o mesmo que autores como Henry Miller, Cortázar e Hemingway – para ficar em exemplos conhecidos – fizeram com sua Paris encantada, sem, no entanto, terem que passar pelo estranhamento. Gosto de pensar neste novo romance, entre outras coisas, como um livro sobre o desaparecimento, uma homenagem ao efêmero. E São Paulo, em seu ritmo desenvolvimentista e atropelado, repleta de cenários cujo único destino é a deterioração, configura a cidade perfeita para observar o esquecimento, uma cidade em que a única forma poética possível é a elegia. Inscrever histórias nessa paisagem é uma forma de fincar estacas na maré avassaladora que constrói prédios na mesma velocidade em que os destrói. Para mim, a frase definidora está em um dos mais emblemáticos sambas de um dos mais emblemáticos paulistanos, Adoniran Barbosa: pegamos todas as nossas coisas/ e fomos para o meio da rua/ apreciar a demolição. Apreciar a demolição. E assim escrever.



É fácil notar a afinidade musical da sua escrita, começando pela epígrafe que abre o livro: “Depois caminhando sozinho/ lembrei da ciranda que meu pai cantava” - Gilberto Gil. Fale um pouco da relação do Café-teatro com as suas diversas facetas musicais. Inclusive, li ele inteiro já imaginando uma quantidade enorme de trilhas sonoras experimentais.


Acho que o meu primeiro contato com a arte, ou melhor, com a expressão, como quase todas as pessoas, foi por meio da música. Lembro de ouvir Em Ritmo de Aventura, de Roberto Carlos, no toca-discos de meu pai e ficar encantado. Mais tarde, estudei numa escola onde havia um piano, e durante o intervalo, já que não tinha muitos amigos, passava vários minutos explorando as notas, observando os sons. Claro que eu não era como alguns dos outros alunos, que de fato sabiam tocar e sentavam-se, tocavam sonatas e recebiam aplausos dos professores e de outros estudantes. No geral, quando eu tocava, não demorava para aparecer alguém me pedindo para fazer qualquer outra coisa. Mas eu não parava, continuava lá, manufaturando acordes e harmonias, e hoje gosto de pensar na escrita como um desenvolvimento rítmico destes primeiros experimentos. Em muitos casos, sacrifico a concordância e a fluência narrativa em nome de uma “dissonância literária”, por assim dizer, quase um ruído, que ajuda a compor o clima de passagens específicas. É curioso que, para além da epígrafe de Gil, que é de uma música que amo do seu álbum de 1968, chamada O Pé da Roseira, outro vulto musical presente no livro é Bill Evans, o pianista canhoto de Nova Jersey. Evans é quase um personagem do livro; é um elemento subliminarmente fundamental para a narrativa, pelo menos da forma como vejo.

Hoje em dia, a música é um fator indispensável para o meu trabalho. Não consigo escrever sem a sensação de isolamento proporcionada por um par de fones de ouvido. Agora mesmo, enquanto respondo a essa pergunta, escuto a I’m so lonesome that i could cry, de Yo La Tengo, mas quando estou escrevendo literatura, não consigo ouvir nada que tenha uma letra, de modo que a história de minha escrita é paralela à história de minha pesquisa de música instrumental. Café-teatro foi embalado ao som dessas músicas, e, pensando nisso, montei uma playlist no Spotify para compor uma sugestão de trilha sonora do livro. Ei-la aqui.


Falando em cênico e musical, gostaria um dia de transformar Café-teatro em áudio-visual?


Se o Rogério Sganzerla ou o Luís Sérgio Person toparem, vamos nessa.


A relação afetiva do personagem principal com a pequena e antiga máquina fotográfica de seu pai é altamente interessante, como no trecho: “Mas o pensamento quando é afetivo só vaga, indiferente às imposições lógicas”. Como se o olhar dele como fotógrafo pudesse retratar um pouco o peso de um passado. Conte-nos sobre a relação do personagem com a antiga máquina fotográfica e as lindas lembranças com o Quero-Quero, o amigo imaginário, entre outras?


O Café-teatro é estruturado em três tempos paralelos que confluem para um mesmo ponto e são narrados por um único personagem. Primeiro, temos a história do narrador com Lígia; depois, suas memórias de infância e adolescência; por último, acompanhamos a forma como desenvolveu seu trabalho de fotógrafo. A câmera, uma Olympus 35, é, acredito, o único objeto que atravessa as três instâncias, justamente porque surge como um elemento simbólico da ideia de testemunho. Além disso, a máquina – e isso é só uma leitura – metaforiza a hereditariedade do olhar, uma vez que é passada de pai para filho. No momento em que decidi que o narrador seria um fotógrafo, foi necessária muita pesquisa, colhi diversas informações a respeito da linguagem fotográfica e da mecânica de câmeras, que estão diluídas ao longo do romance. O livro é repleto de ensaios sobre fotografia, um tema que me interessa muitíssimo. Lembro que um dos pontapés iniciais para começar a escrever o Café-teatro foi a fotógrafa norte-americana Vivian Maier, como sua biografia podia ser usada para explorar temas tão caros a este autor: o anonimato, o desaparecimento, o registro do fugaz. No fim, Maier acabou nem aparecendo, mas penso nela como mais um espectro ao redor deste trabalho. Quem conhece a história dela, sabe que isso faz sentido. Para o personagem, a Olympus é a um só tempo um documento de identificação e um caderno. Susan Meiselas, outra fotógrafa norte-americana, disse certa vez que, ao longo de sua trajetória profissional, a câmera funcionou como um passaporte com o qual ela podia entrar em lugares de onde, sem a câmera, seria rapidamente enxotada. O fotógrafo, na sua função de registrar, já parte de um lugar de distanciamento, e acredito que o romance trate bastante disso.

Quanto ao quero-quero e ao ensaio sobre o irmão imaginário presente no sexto capítulo, esses são elementos narrativos que pertencem ao campo da imaginação e da construção literária. São parte de um conjunto que tento fazer funcional quando olhado em sua integridade, as imagens correspondendo umas às outras, de forma que seria difícil isolá-los e examiná-los um por um. Posso dizer que a memória é outro tema central no livro. A memória, a distorção da memória, a realidade distorcida por meio da lembrança e o registro como forma de espelhar o tempo em retrospecto.


O protagonista se apaixonava pelas mulheres ou pelas fotos delas? É linda a forma como ele era capaz de transformá-las através da lente.


Incapaz de apaixonar-se, patologia explicada ao longo do romance por meio de flashbacks de sua infância e adolescência, este perso-narrador se relaciona com as imagens que ele próprio produz. Há uma passagem em que isso fica muito claro, como sua paixão é pela construção de uma imagem irreproduzível, uma paixão tamanha que o faz sentir-se suspenso sobre as tendências humanas do desejo e do tesão. A única mulher por quem se apaixona, Lígia, é a única mulher que não se deixa registrar.


Em alguns momentos pude lembrar de Rubem Fonseca. Existe influência? Conte sobre as suas influências?


É interessante você dizer isso. Rubem Fonseca foi um daqueles autores que me influenciaram sem eu nem perceber; minha relação com o autor mineiro é bem pouco profunda: tirando alguns contos de uma edição antiga de A Coleira do Cão, não li nada dele. Curiosamente, algumas das pessoas que leram o Café-teatro antes da publicação, pessoas que confio e sabia que seriam leitoras a um só tempo generosas e sinceras, falaram a mesma coisa: me lembrou muito Rubem Fonseca. Quando o Mário Bortolotto escreveu no prefácio que meu livro tratava-se de “literatura brutalista”, engrossou ainda mais essa percepção, tornando-o um romance, digamos, fonsequiano. É claro que agora preciso ler Rubem Fonseca, identificar-me na grandeza de sua obra que, de tão influente, acabou influenciando escritores que nem o leram. Por outro lado, creio que há dois grandes temas no Café-teatro (e em tudo que escrevo) que eram caríssimos ao autor de O Cobrador: o erotismo e a violência. O erotismo e a violência que são, afinal, temas muito latino-americanos, e a partir daí posso começar a falar sobre as minhas influências, porque nesse momento a minha pesquisa literária está focada na literatura latino e hispano-americana. Admiro, então, autores contemporâneos como Fernanda Melchor, Samanta Schweblin, Silvia Molloy, Mario Bellatin, Alejandro Zambra; e autores do século XX, como Roberto Bolaño, Tulio Carella, Ricardo Piglia, Silvina Ocampo, Levrero; enfim: parece pretensão dizer que eles me influenciaram, porque é claro que ainda dou meus primeiros passos num campo onde estes vultos correm sem dificuldade, mas certamente são autores que me inspiram, porque pensam a linguagem a partir da perspectiva latino-americana, uma compreensão que, ao que me parece, ainda falta à literatura brasileira contemporânea, com as exceções de praxe. E, claro, sou influenciado o tempo todo por filmes, músicas, por frases soltas que capturo no ar dessa cidade, nas suas esquinas, nas suas zonas cinzentas.


Um retratista rouba almas?


Espero que não, mas acho que sim. Ou vice-versa.


Ian, gosto do seu palavreado e escolha elegante das suas palavras. Café-teatro tem um refinamento na escrita pouco encontrado. Como se dá o seu processo de escrita e escolha das palavras?


O primeiro trabalho é o trabalho frasal. A frase, o tom, surgem antes de tudo, antes até de eu saber sobre o que será a história. Creio que isso está relacionado ao prazer da escrita, ao apreço pela linguagem. Todo livro, afinal, é sobre as possibilidades e os limites da linguagem, e o meu não é diferente. Quando começo uma narrativa, nunca sei como vou direcioná-la, tudo o que tenho são um punhado de imagens, inquietações e dúvidas, de forma que não há pressa e posso ir talhando as frases com todo o tempo do mundo. À medida que a trama se revela e a voz narrativa se pronuncia, o léxico se afunila. E quando termino o livro, com essa voz já definida, o releio tesourando ou substituindo adjetivos, verbos e até substantivos que me parecem dissonantes em relação ao narrador. A forma como uma pessoa se relaciona com a realidade se dá por meio de suas referências, sua biografia, e parte do trabalho do escritor é descobrir quais são as palavras, as construções que sobram de uma vida.


Ian, pensei inúmeras vezes em uma forma de falar sobre as fotografias sem dar spoiler. Não consegui achar palavras. Só posso, aguçando a curiosidade do leitor, dizer que foi uma das coisas que mais me apaixonou no livro. Deixo em aberto, para a sua decisão de falar um pouco sobre ou deixar como surpresa.


Como assistimos o jogo pela partida, não pelo resultado, não acredito muito em spoilers, mas posso manter a presença das fotografias ainda obscura para o futuro leitor. Posso dizer, porém, que a ideia das fotografias surgiu depois que o livro já estava pronto, a trama terminada. As fotografias são, então, inserts poéticos na narrativa que dão ritmo e separam o livro em partes sem aquela burocracia de parte 1, parte 2, ad infinitum. Todas as fotos estão associadas a momentos chaves da narrativa, creio, mas isso nem sempre se dará de forma explícita. Seja como for, foi só uma ideia que tive. Se eu soubesse de onde vêm as boas ideias, como disse Leonard Cohen, eu iria lá com mais frequência.


Café-teatro é para ser lido atento às suas instruções sobre as luminosidades cênicas que nele existem, como no trecho: “Hoje não sei por que, voltando a esta visita, me atenho tanto aos detalhes da luz. Talvez seja porque de algum modo aquela relação específica entre luminosidade e escuridão fosse uma síntese de tudo o que aconteceria entre nós”. Você consegue nos transportar para essa questão facilmente. Fale sobre isso, da importância da luz no seu trabalho?


Traindo minha obssessão pela literatura latino-americana, um dos meus autores prediletos e um dos mais importantes para a minha formação, é Scott Fitzgerald. Suave é a Noite foi um dos livros fundamentais para que eu me interessasse pela escrita. Depois disso, lembro que li de cabo a rabo o Estranhos Embora Íntimos, sua coletânea de contos que deve ter umas 700 páginas. Uma das coisas mais impressionantes a respeito de Fitzgerald, na minha opinião, é a forma como ele constrói o clima de suas passagens por meio da iluminação. Próximo como era do cinema, a aproximação faz sentido, indo relacionar-se também com o impressionismo, movimento artístico que prezava o movimento da luz e influenciou tantos cineastas, como por exemplo Akira Kurosawa. E o que Fitzgerald me ensinou, ou pelo menos o que eu entendi, foi o seguinte: não descreva o objeto por meio do próprio objeto: descreva o objeto por meio da luz que incide sobre ele, tornando-o efêmero e, portanto, único. Claro que isso não é uma regra, e sim uma espécie de técnica que funciona para mim mas que para qualquer outra pessoa pode soar bobagem. Falando mais especificamente do Café-teatro, o personagem é um fotógrafo, e, como falei na pergunta 8, sua forma de relacionar-se com as coisas que vê é através da fotografia, isto é, da luz e da sombra. E isso é algo que me interessa, e que sei que é presente na obra de Rubem Fonseca (para me estender um pouco sobre a pergunta 6): a relação das pessoas com o seu ofício, outro tema do Café-teatro, indicado, em parte, por essas descrições sutis que você percebe a respeito da luminosidade e da escuridão.


Vejo o seu livro com passagens Noir, cenas em preto e branco, músicas para bons ouvintes, arte - Parabéns, pela riqueza de detalhes tão artísticos. Deixo esse espaço para que conte sobre o lançamento, onde o leitor pode te encontrar e sobre qualquer projeto que queira divulgar. Obrigada, pelas suas respostas e pelo seu livro encantador.


Eu que agradeço, Renata. Sorte do escritor que tem uma leitora feito você. Obrigado pela leitura atenta e atenciosa. Acho que não há muito o que ser dito, além de que dia 30/01, às 19h30, teremos um pré-lançamento virtual com Marcelino Freire, Mário Bortolotto, Julia Codo e Helena Machado, escritores que admiro demais; e dia 05/02 um lançamento presencial na Ria Livraria, se tudo der certo, das 16h às 00h. Todos os detalhes sobre o lançamento podem ser encontrados no meu perfil do instagram: @ian_uviedo e quem quiser falar comigo é só escrever no e-mail: ianuviedo09@gmail.com. É isso aí.





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