Entrevista Beatriz Aquino - Livro: Anne B.



Beatriz Aquino, além de escritora, é formada em Publicidade e Propaganda e é atriz de teatro. Dia 15 de dezembro, ela lançará o livro Anne B., pela editora Laranja Original. Beatriz também é autora dos livros: Apneia (romance), A Savana e Eu (crônicas) e Caligrafia selvagem (poesia). Colabora em diversos sites, jornais e revistas, como o jornal O tornado e a revista InComunidade, de Lisboa. Atualmente vive em Portugal.


Anne B. abre lindamente com o escrito do personagem central: “Diga-me Francisco, para onde voamos quando o mundo se torna cruel e perigoso? Para longe? Para o alto? Não. Para dentro, não é? Para dentro. Vamos a isso então”. Esse mergulho é a vida do livro. Conte como foi trabalhar com questões tão profundas e psíquicas da protagonista.


Anne B. é uma síntese de várias mulheres que observei durante a minha vida. Suas dores, suas buscas, seus sonhos e medos. Está tudo ali, nesse longo diálogo que a personagem tem consigo mesma, usando por vezes um interlocutor que se chama Francisco. É como uma conversa diante do espelho. Naqueles momentos onde fica impossível mentir para o mundo e principalmente para si mesmo. São momentos cada vez mais raros, pois a vida tem nos exigido demandas que nos afastam do contato com o nosso interior. Esse mergulho da protagonista é uma busca por respostas e também por um modo de conseguir continuar fazendo perguntas. É uma busca pelo entendimento do amor, pelo entendimento da existência humana. Uma procura pela hora mais clara onde a aceitação das coisas nos chega e nos traz paz. “A hora mais pacífica.” Como diz o subtítulo da obra. Mas aviso que o livro não traz soluções. Ele é na verdade uma constatação da dor que carregamos por simplesmente sermos humanos. É um relato de como alguém lida com suas dores e alegrias. De alguém que busca, através da literatura, um amplo alcance do entender e do sentir.


O Francisco é um personagem muito importante e presente, apesar de praticamente um ser espectral. Às vezes nos parece até imaginário. Fale um pouco dele para nós.


Francisco é o homem idealizado. Um amor impossível ou não correspondido. É um exemplo de cisão entre a mulher e o homem. Clássico dilema romântico. O desencontro entre dois seres que querem se encontrar. Esse hífen-abismo que nos separa desse outro gênero que tantos nos maravilha e nos assusta. Gosto da ideia de ter uma mulher conversando com o homem que ama. Admitindo o que sente, como gostaria de viver ao lado dele, como planeja o futuro, o que a faz ter medo. E foi somente nesse formato de carta – pois o livro inteiro é como uma longa carta que Anne B. escreve para Francisco – que consegui encontrar essa franqueza. Acredito que se existissem diálogos no livro, de algum modo essa mulher corromperia seus sentimentos em prol dessa comunicação. Não somos honestos quando nos comunicamos diretamente. Por isso precisamos de subterfúgios. Uma carta é ao mesmo tempo um diálogo com o outro e também um exercício solitário onde temos a liberdade de abertura profunda de sentimentos sem o perigo da interrupção ou do julgamento.


Beatriz, você também escreve poesia. Como você transita nessas duas vertentes – prosa e poesia?


Não vejo grande diferença entre as duas. A poesia, a prosa e o romance são apenas modos de contar estórias. O sentir é o mesmo. Talvez na poesia o sentido fique mais condensado, mais hermético. Por isso ela possui mais força e de certo modo mais beleza. Mas gosto muito da prosa. Pois ela é um dilúvio, um deixar correr. Gosto da espontaneidade das palavras que jorram e fazem o seu percurso à revelia do desejo do autor. Gosto quando sou apenas testemunha do que escrevo. Quando apenas atendo a essa força maior. É quando a mágica acontece. Claro que o mesmo pode se dar na poesia, mas somente se ela também for espontânea. Desconfio de autores que se debruçam por meses em um poema lapidando-o em busca de uma conformidade estética. Se isso não interferir na essência do que se quer dizer, tudo bem. Do contrário, se estará apenas fabricando beleza. E não sei se isso é o bastante. Sou muito intuitiva na minha escrita. Respeito muito o fluxo e até mesmo os meus erros durante o processo. Porque um livro é um processo do sentir, um processo do entendimento do autor que também está em busca, como todos os seres humanos, por um sentido para a vida. Não é e não deve ser nunca uma obra fechada. Ele deve ser uma janela aberta para outros pensamentos. Não é raro meus personagens pedirem ajuda ao leitor. Afirmarem que estão perdidos. Que sentem medo. É o meu modo de apertar a mão dos que me leem.


Como atriz, você considera que o autor tem que entrar no personagem ao escrevê-lo?


Acho que ele precisa no mínimo ter empatia. E muita compaixão. Os personagens são espectros que batem à nossa porta. São uma amálgama do que vemos pelas ruas. De alegrias e tragédias vividas pelas pessoas à nossa volta. Acredito que no inconsciente coletivo exista uma enorme complexidade de expressões clamando por vida e voz. Esse é o trabalho do autor. Dar forma e voz para essas pessoas. Que são muito vivas, não se engane. E podem trilhar seu próprio caminho uma vez que lhes for dado espaço. O autor ou o ator funcionam como uma espécie de embarcação para essas ideias. E essa embarcação precisa ser ampla e generosa para que ali todos vivam sem preconceitos e barreiras. O fato de ser atriz me permite uma proximidade maior com os personagens. Que trazem também um pouco de mim. É a minha voz falando outras vozes. Assim é o ofício do intérprete do sentir.


A protagonista escancara todo o seu interior. É nítido notar a forma como ela afirma ser necessária a paz. Você acha, que em tempos turbulentos, esse sentimento vira quase uma questão de sobrevivência?


Sim. Sem dúvida. Quando pequena ouvi uma música chamada “Poema”, que foi escrita por Cazuza e interpretada pelo Ney. E nela tem um trecho que diz: “De repente a gente vê que perdeu ou está perdendo alguma coisa morna e ingênua que vai ficando no caminho”. E aquilo me deu um clique. Eu era muito nova, mas ali compreendi o dilema da humanidade. Essa busca por um estado de espírito onde experimentamos a paz e conseguimos ver a beleza das coisas. Mas essa hora sempre nos escapa, pois somos vorazes. Os livros são pontes entre o caos que vivemos e essa hora mágica do entendimento e da constatação do belo. De que somos capazes de construir o belo mesmo que seja apenas dentro de nós. E os livros também são um relato da grande angústia humana que se debate entre o sublime e o animalesco. Nesse novo livro tem uma frase que diz que os nossos filhos viverão essa grande hora, eles conseguirão segurar os minutos de beleza que escaparam de nossas mão bárbaras. Um livro é um testemunho dos tempos que vivemos. É também um pedido de ajuda. E hoje em dia nunca se entendeu tanto a importância da paz para nossas vidas.


Tem uma frase que achei tão forte e linda que eu gostaria que falasse sobre ela: “A mulher quando ama se santifica”.


É. A mulher é um bicho muito doido, não é? Tem um pé na santidade e outro no profano. Que nem é profano, mas que é algo muito visceral e profundo e que por vezes causa medo. Porque ainda não tem nome. Ela possui essa capacidade de amar sem limites. O amor de mãe por exemplo é uma coisa maravilhosamente assustadora. E a mulher não ama de forma muito diferente os homens como ama ou amaria seus filhos. Isso assusta. A mulher quando ama quer criar beleza, harmonia. Ela quer transformar o mundo com o seu amor. Por isso ela é responsável por carregar a vida. É uma potência. E tudo nela está conectado. Diferente dos homens, ela não possui divisões entre o desejo e o sentimento. E isso, claro, pode trazer muita dor. Principalmente nos dias de hoje onde o excesso de individualização está massacrando o que há de mais bonito nas mulheres. Sua subjetividade, sua essência intuitiva. Não separo o amor do divino. Por isso a frase. A mulher quando ama quer afagar o pés dos anjos. E deseja que seu companheiro faça o mesmo. Ela não aceita menos que isso.


A personagem nos dribla a todo momento com questões psicológicas bem profundas. Num trecho que expõe bem essas questões, ela fala: “Eu tinha as minhas falhas. Andava manca, como ainda ando por aí, não queria que visse esse meu lado deficiente e, por isso, te dava um lado ainda pior”. Fale um pouco sobre isso.


Essa é a beleza do livro. Uma mulher que se despe e admite ser falha. Porque a redenção nem sempre vem com a nossa vitória sobre o mundo ou sobre nós mesmos. Ela também nos chega na compreensão profunda de nossa incompetência e fragilidade diante do todo. Essa também é uma hora muito bonita dentro de nós. Nesse momento do livro, ela constata que ao tentar dar o melhor de si acaba por dar um lado ainda pior. Acredito que isso acontece porque a pressão do êxito nos massacra. Desde pequenos somos treinados para o sucesso. Aprendemos que para ser feliz precisamos vencer. Quando esquecemos que perder também é uma vitória. Uma vitória sobre nossas ilusões. Sobre a imagem daquilo que entendemos como ganho. Acredito que seria mais proveitoso e bonito se as relações fosse pautadas no exercício do entendimento amplo de si e do outro. Porque é para isso que elas servem. Deveríamos saber que nesse processo muita dor pode surgir. Podemos machucar e sermos machucados. E isso deveria ser acordado desde o princípio. Mas todas as nossas relações bem como nossa ideia sobre felicidade e vida estão carregadas de conceitos e ilusões. Por isso tanto sofrimento e rejeição. Queremos o amor dos filmes. Sem passar pela linha de edição. O livro é um convite a essa abertura. A falarmos com franqueza.


Para você, quem são Anne B. e Francisco?


Anne B. é a mulher que eu cruzo na rua, que anda de cabeça baixa, entregue aos seus pensamentos. É também a mãe que ri com o filho no parque e que ao mesmo tempo se preocupa com ele. São essas mulheres que eu vejo pelas cidades e que não tenho coragem de perguntar o que sentem. Ela é um pouco daquilo que entendo o que é ser uma mulher no mundo. Com seus medos e sonhos. Uma mulher que hoje é solitária, talvez mais que suas antecessoras, porque ousou sonhar alto e por isso é automaticamente exilada do mundo. E precisa abrir, de novo e de novo, o seu próprio caminho no mundo. E ela é principalmente uma mulher que ama. Que ama muito. Mas que não faz ideia do que fazer com isso. Já o Francisco é esse ser distante, que ela não compreende. É a personificação do abismo entre os dois gêneros que comentei no início. É o homem que feriu. Que partiu sem dar explicação. É o que amou. Que traiu. É o pai ausente. É o que nos fere e não nos explica o porquê (talvez porque ele também não saiba) e por isso deixa esse grande espaço dentro de nós. O livro tenta falar desse encontro não apenas entre Anne B. e Francisco, mas entre esses dois seres tão complexos e diferentes, e que nasceram para esse encontro.


Beatriz, fale um pouco sobre algum livro com esse teor psicológico que já tenha mexido profundamente com você. Me lembrei de Laços de família, da Clarice Lispector.


Amo Clarice. Aprendi com ela essa possibilidade de escrever de dentro pra fora. Nunca começo um livro estruturando-o. Sento e deixo a coisa acontecer. Claro que para isso aconteceu primeiro um longo processo. Procuro estar atenta ao sentir que está à minha volta. Trabalho arduamente para me manter fiel aos meus princípios. Enfrento guerras cotidianas para me manter genuína. É essencial que o escritor viva o que escreve ou que pelo menos se entregue profundamente ao que está escrevendo. Não separo o que sou do que produzo. Meus livros são um reflexo automático das minhas questões. Não tomo convicções emprestadas. Não tento entreter. Faço um esforço diário para ir na direção contrária e me proteger desse grande manto de anestesiamento coletivo que abraça a humanidade. Boas leituras são então essenciais. Gosto muito de A Obscena Senhora D., da Hilda Hilst. Talvez ali aprendi a escrever sem pudores. Água Viva, de Clarice, também me inspirou a fazer esse mergulho interior. Quando falamos com a verdade, tudo é possível. Não há feio ou bonito. Mas o que mais aprendi com esses autores é que todos viveram uma vida de entrega ao que acreditavam. Eram, antes de serem escritores, pessoas fascinantes. A escrita era apenas um modo de eles expressarem suas riquezas internas. Acredito ser essa a missão humana. Alcançarmos o nosso lado mais sublime através de nossas dores e possibilidades. A experiência humana ainda é a coisa mais interessante que existe.


Beatriz, muito obrigada pelo seu tempo. Anne B. nos faz sair da leitura de forma diferente. Um mergulho profundo e poético na alma de uma mulher. Uma viagem necessária. Obrigada! Deixo aqui um espaço para você falar sobre o lançamento, onde encontramos o seu trabalho (redes sociais) e o que tiver vontade de dizer.


Agradeço muito pelo interesse. O livro será lançado no dia 15 de dezembro, às 19h, na página do Facebook da editora Laranja Original: https://www.facebook.com/laranjaoriginal. E meus trabalhos podem ser encontrados no Facebook.com/beatriz.aquino.77, no linktree /https://linktr.ee/beaaquino e também no Instagram @beaaquinoatriz.



Entrevista: Renata Py

Foto: Arquivo pessoal da autora.


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