Entrevista Alexandre Pilati - Livro Tangente do cobre

Alexandre Pilati, poeta e professor de Literatura Brasileira na Universidade de Brasília (UnB), lançará no próximo dia 29 de junho o seu novo livro de poemas, Tangente do cobre (Editora Laranja Original). Esse é o quinto livro do escritor − ou seja, já fomos presenteados com sua poesia anteriormente. Agora, com Tangente do cobre, Alexandre amplia os limites da sua voz poética trabalhando a ligação entre personagens como Karl Marx, Amy Winehouse, Safo e Ramona, e questões da existência humana em um diálogo entre o clássico e o contemporâneo.




Alexandre, conte da ideia sobre esse diálogo entre as questões da vida e os personagens que encontramos em Tangente do cobre.


Tangente do cobre reúne poemas escritos a partir de 2018, ano em que publiquei o livro Autofonia. A principal busca que empreendi nesses poemas foi a de deslocar a atenção da voz lírica individual e dar lugar à narratividade ou à ficcionalização. Isso porque, depois de ter publicado Autofonia, percebi que minha poesia estava muito centrada numa perspectiva subjetivista da lírica, o que resultava, na maioria dos casos, na expressão de um mundo mais interpretado intimamente do que revelado materialmente. A tentativa de revelar o mundo, de deixá-lo falar, típica da ficção, foi a base para eu começar a produzir poemas em que personagens (históricos, anônimos, reais ou ficcionais) foram se fazendo progressivamente mais presentes.


O tempo em que vivemos está totalmente conectado a experiências, até históricas, do passado. Como essas experiências e os personagens históricos de todos os tempos influenciam a sua obra?


O ponto da História em que a vida de cada um de nós ocorre não está isolado ou desconectado dos eventos que constituíram a condição que chamamos de presente, a única, afinal, à qual temos acesso plenamente. Na literatura, esse fato estruturante de nossa relação com o tempo e as contingências se dá como uma condição de existência do texto. Uma voz lírica que fala hoje, por exemplo, se constitui evidentemente como o resultado de um processo de acumulação. Se eu posso escrever hoje, faço isso com ferramentas que não foram criadas por mim. Desse modo, a poesia é um tecido muitas vezes inconsútil, onde se amarram falas dos que nos antecederam e que integram o nosso presente, embora não vivam mais conosco. Assim, as referências a personagens do passado, históricos ou não, em Tangente do cobre têm um pouco a função de explicitar a constituição desse tecido. Meus poemas tentam evidenciar que nenhuma voz é única: toda voz é um coro histórico.




O poema “Conto de fadas” é bem interessante, tendo Karl Marx como personagem central e tratando de seu encontro com Jenny. Conte sobre eles para a gente?


Marx junto com Dante e Machado de Assis são minhas leituras de sempre. Estou constantemente lendo e relendo textos deles e sobre eles. No caso de Marx, quando escrevi o poema, estava às voltas com leituras de seus textos de juventude e também com algumas biografias. A aproximação de Marx e Jenny é sempre contada pelos biógrafos num enquadramento muito romântico, que é determinado, talvez, pelos versos que o filósofo dedica à amada. E ressalte-se: quando digo “versos” não é apenas um poema, nem dois ou três, mas muitos cadernos de poemas, o que, aos olhos de hoje, gera uma certa graça de despropósito na coisa toda. A mim me parecia, então, que nesse ponto as biografias tinham certo ar de “conto de fadas”, pelos detalhes curiosos que registram, e esse foi o título que escolhi para o poema. Depois fui recolhendo pedaços de referências de textos de Marx e de seus biógrafos e fui colando e costurando com algumas palavras minhas. Mas este é, praticamente, um poema-colagem ou montagem. Achei que seria interessante colocar em evidência a ligação entre o amor e a luta política, que se combinam, nos dois personagens, na simbologia dos versos e do coração. O resultado é divertido; eu, ao menos, me diverti escrevendo. Gosto de que Marx seja ali chamado de “meu javali selvagem”.


É fácil notar a presença da música em seu trabalho. Quais são suas maiores influências e inspirações?


Eu ouço muita música, praticamente todos os dias. Além disso, gosto de dizer que faço parte de uma geração de poetas ou escritores que chegou à poesia ou à literatura por causa da canção. Por ter me formado culturalmente ouvindo muito a canção brasileira, cuja exigência estética, mesmo no que é mais trivial é altíssima seja em termos de letra, seja em termos de música, o mundo da literatura, especialmente o da poesia, abriu-se para mim muito naturalmente, quase como uma necessidade natural que foi despertada em mim pela canção. Em Tangente do cobre, há referência a Cartola, Amy Winehouse, Chico Buarque, Strauss e outras, que talvez tenham passado de modo mais ou menos inconsciente. A música é certamente um grande ponto de partida para minha escrita. Sinto que ela é um gatilho da criatividade quando as ideias estão meio travadas, sem encontrar forma que as dê expressão.


Bonito notar as questões existenciais, psicológicas e sobre relacionamentos que existem no livro, mescladas com referências artísticas e literárias, como no poema “Pegada (Crusoé)”. Como se dá essa mistura boa?


Essas questões existenciais aparecem porque a tentativa foi a de “animar” personagens históricos com alguns traços definidores do que se pode chamar de um caráter. Dar consistência verossímil e universal a um caráter é um pouco a função da literatura, é o que torna aquela figura algo típico, e não apenas um dado individual. E, no caso do meu livro, a construção desses caracteres se dá sobretudo com a projeção dos meus próprios sentimentos e da minha própria percepção de mundo, o que acaba resultando em tentar trazer esses personagens para a cena contemporânea. Bem, esta é a tentativa. Talvez nem sempre ela seja bem-sucedida, mas trata-se de um trabalho de transfiguração literária de personagens, históricos, literários e anônimos, que são submetidos às condicionantes da linguagem e da minha própria experiência pessoal.


Você me contou uma história que achei bem bacana que inspirou uma personagem do seu livro, a Ramona. Conta ela pra gente?


Ramona é uma personagem dessas típicas do Brasil, que exprimem nossa vida cotidiana e o que há além dela; que despertam em nós o nosso melhor amor e nosso pior ódio. Escrevi esse poema numa viagem que fiz a São Paulo, cidade que adoro, e me hospedei no Centro, que é belo, bruto e cheio contradições explícitas e de personagens interessantes. No dia em que peguei um carro para ir ao aeroporto tomar o avião de volta a Brasília, ao dobrar uma esquina da República, vi uma transexual negra belíssima, alta, forte, dando uma risada maravilhosa, cheia de vida, intensa. Ela usava um turbante branco e rosa e estava exatamente embaixo de um letreiro de estabelecimento comercial que estampava em letras grandes “Ramona”. A beleza trivial da cena era tamanha que parecia que todo o resto (ruas, transeuntes, interlocutores, carros) havia desaparecido. Naquele instante só existia a meus olhos “Ramona”, o nome, a pessoa linda. Entendi, então, que era obrigatório fazer um poema, inventar uma história para “Ramona”. E foi assim que ela se tornou “A rainha da República”. Quando desembarquei em Brasília, o poema estava pronto.


Estou bem curiosa para saber também sobre a inspiração da Amy Winehouse.


Eu dedico a Amy Winehouse o poema “Você volta pra ela”, em que faço referência às pessoas que, tal como ela, são “atravessadas pelo dom” e produzem uma beleza capaz de instigar em nós a criação de outros vínculos com a humanidade, mais livres, mais intensos, mais vivos. Isso tudo eu reconheço na música da Amy, de quem eu sou realmente fã, não há outra palavra. Quando ela morreu, quis fazer um poema para ela, falando um pouco de como a indústria da música produz e massacra talentos como ela. O seu caso é, nesses termos, um paradigma do que efetiva o mundo capitalista. Nunca consegui fazer o poema, que ficou como uma dívida dentro de mim. Certa vez, estava caminhando numa rua de Roma e, numa das vitrines daquelas lojas muito badaladas, estava um quadro com uma pintura imensa do rosto de Amy Winehouse. Aquela beleza viva destoava de tudo quanto a rodeava. As mercadorias mortas entravam em contraste com a potência de vida daquela voz que não havia desaparecido, apenas se calado. Então fiz o poema que dá figura ao gesto subjetivo de eu voltar a Amy e a sua voz, no qual eu declarei: “é bom saber que existe gente em forma de vulcão”. Com esse poema eu abro uma seção do livro chamada “Damaria”, que é o coletivo de damas. Nessa seção os poemas são todos dedicados a perfis femininos.


É forte a presença de questões sobre política, dinheiro, humanidade e solidão. A poesia, no seu caso, nos faz olhar de frente para o mundo que vivemos e seus dilemas éticos. Colocar isso em forma de poema para você é uma catarse das dificuldades da existência?


Escrever e ler literatura, para mim, é uma forma de conexão com o mundo e com suas contradições. Toda literatura fala apenas de um assunto: as relações humanas. É com essa dimensão que nos vinculamos quando lemos ou escrevemos literatura. Isto é, se for de verdade. Como dizia Drummond: escrever é uma atividade de grande responsabilidade. E, se ao processo de escrita e de leitura está vinculado o princípio da catarse − creio que vale sublinhar que aqui catarse não significa, em hipótese alguma, evasão do mundo, mas criação de novos vínculos com ele −, a catarse indica que, através da arte, nos recolocamos no mundo com mais lucidez acerca do nosso lugar social. Um poema que eu acho que indica bem esse princípio, que é ordenador da minha literatura, é “Instância”, o primeiro poema do livro, no qual eu digo que “narrar” é “uma forma de transformar” e de “transformar-se”. Se a mercadoria distrai e aliena, a arte integra e vincula.


Alexandre, escolha uma das poesias para darmos um spoiler aos leitores. Pode ser?


Vamos ver se eu sou bom de spoiler (risos)... Acho que uma coisa curiosa desse livro é o seu arranjo geral. Dividi os poemas em três partes: “Conjuntura”, “Você volta pra ela” e “Bate outra vez”. Cada uma delas tem peculiaridades muito próprias e, claro, há uma unidade entre os poemas que é a percepção crítica da realidade através da arte e das figuras humanas que eu reconstituo em alguns dos textos. Mas gosto muito de dois experimentos, que agrupei sob o título de “Duas fábulas”. São dois poemas em que os animais são protagonistas. É possível enxergar nos olhos e nas atitudes desses animais gestos e sensações muito familiares. A provocação que eu faria aos leitores seria a de tentar adivinhar quem são os animais que atuam como personagens dessas duas pequenas fábulas em forma de poema...


Alexandre, obrigada pela sua atenção. Como foi bom ler o seu livro. Deixo um espaço para você falar o que quiser aos leitores: sua obra, planos, conselhos, música ou poesia.


Eu é que agradeço. Sempre é bom poder conversar um pouco sobre as coisas que a gente escreve, especialmente quando se trata de uma leitora sensível como você é. Não há desejo maior neste momento que nós vivemos que o de que possamos reorganizar as forças sociais capazes de propor um genuíno futuro para o nosso país. Superar a pandemia e a lógica terrível que comandou a sua condução é a esperança do momento. Falo um pouco sobre a pandemia, aliás, no poema “O sonho de uma coisa”, que é também uma homenagem a Marx e a Pasolini. No final desse poema sonho com a possibilidade de que em breve “sairemos pela tarde/ austera e crua/ e esperaremos/ que não seja tarde demais/ para as flores, a lágrima/ o desenho à mão livre/ o amanhecer”. Sonhar com isso já é um começo, que está disponível na poesia, na música, na literatura e na arte. Isso é bom, alenta e faz a gente lutar.






Editora Laranja Original

Editores Filipe Moreau e Germana Zanettini

Projeto gráfico Marcelo Girard

Produção executiva Bruna Lima

Diagramação IMG3

Foto autor Arquivo pessoal

Entrevista Renata Py


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